sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Maytland


MAYTLAND
(Maytland)
de Marcelo Charras, Argentina, 2010


Victor Maytland é o nome artístico de Roberto Sena, conhecido diretor de filmes pornográficos na Argentina, autor daquele que foi o primeiro filme deste gênero naquelas plagas, "Las Tortugas Pinjas". 
Desde sempre ocupado nesta função e contornando as dificuldades de sustentá-la junto à familia - filhos e esposa - ou mesmo junto à classe cinematográfica de seu país (começou trabalhando no cinema convencional como assistente, produtor, etc. e costumava dizer que queria ser como Aristarain), acabou fazendo sucesso com uma séria pornô televisiva intitulada "Expediciones Sex" cujos capítulos foram transmitidos pelo canal a cabo Afrodita. 
Isto resultou num contrato para produzir e dirigir 60 filmes pornôs na produtora CineXlatino em Los Angeles distribuidos em 3 categorias: Cine 69 (heterossexual), Puticlub (travestis) e Latin Puppies (gay).
De volta à terrinha, Vitor resolve fazer um filme não-pornográfico em que narra suas atribulações como um diretor que sonha em inovar a forma de filmar o pornô, com fábula e roteiro, um sonho antigo que sempre esbarrou em negativas de financiadores que nunca concordaram em fazer algo além do trivial que sempre lhes rendeu lucro, sexo sem cortes e sem história.
Tudo se passa em ambientes decadentes e pobres, desde as locações até ao figurino, mesmo quando estão vestidos socialmente. A produtora fica num subterrâneo fétido, desarrumado e empoeirado; a casa do personagem que vive com seu filho é uma ruína úmida descuidada, alguns pés de maconha que Victor cuida nas horas vagas e  uma suja banheira de plástico sobre algo que se poderia chamar de terraço, que o acomoda para jiboiar sua imensa barriga, só ligeiramente maior do que a do brochado ator protagonista de suas aventuras sexuais na tv. 
Intencionalmente. 
Victor quer misturar nas representações de suas fodas a história trágica da repressão ditatorial de seus país, dos campos de extermínio, dos desaparecidos. 
O produtor reluta porque, mesmo que os milicos estejam sem o poder daquela época, não quer chafurdar nas feridas ainda abertas, além de que seu público de punheteiros não se interessa absolutamente pela memória histórica, quando muito nas imagens gráficas e sugestões olfativas do sexo em ação. Reescreve o roteiro que Victor concebeu como uma obra de despedida, um canto de cisne que vai superar tudo jamais feito. É claro que tal interferência não é aceita, e Victor acaba salvo pelas economias do filho, que, acompanhando toda esta odisséia resolve disponibilizá-la sob protestos deste pai que nunca acedeu à sua participação em suas produções, apesar da insistência dele, como tributo à memória da falecida mãe e esposa que em vida nunca perdoou o marido por suas escolhas profissionais. Aqui temos mais uma vez a mãezinha morta, sofredora e intransigente, capaz de melar toda uma história, brochar pirocas duras, tirar tesão dos protagonistas e assombrar um filme inteiro. 
Luciano, o filho, é o personagem que vai impulsionar não só o derradeiro filme de seu pai como também decifrar os mistérios subjacentes ao sumiço das cópias de seu primeiro filme, "Las Tortugas Pinchas", do qual aparentemente só existe uma caixa vazia de VHS numa vitrine de preciosidades pornôs lacrada  num quiosque de Buenos Aires, onde ele passa horas diariamente admirando-a obcecado.
Aqui temos um filme de formato incomum, dificilmente catalogado em algum escaninho crítico cinematográfico: interpretado pelo personagem real fazendo seu próprio papel, contando os fatos de suas próprias dificuldades pessoais na industria audio-visual e fantasiando, com os atores de seus antigos seriados, uma história de amor e mistério que ao final resvalaria facilmente para um docudrama ou algo que o valha,  mas deixa-nos com um ponto de interrogação e um ruído considerável na comunicação da história contada e naquilo que a produção se propôs. Talvez seja um legítimo representante do que atualmente chamamos autoficção.
Aqui não se poupa esforços em disfarçar a decadência das coisas, das pessoas e do próprio filme que, filmado digitalmente, nos fornece através da projeção precária em que o assisti, das legendas eletrônicas dessincronizadas e do som abafado, um fenômeno orgânico hiperrealista da boca-do-lixo, um acontecimento cultural (ou social) entre espectadores e o filme mediatizado por suas imagens, envolvendo-os  involuntariamente numa experência, digamos, interativa.
De cinco estrelas, duas.

Tiranossauro


TIRANOSSAURO
(Tyrannosaur)
de Paddy Considine, Reino Unido, 2010


Aqui se opera o milagre da redenção, da emancipação, da superação de vidas amargas e destituidas de afeto, atravessadas pela violência cotidiana de uma existência onde já não resta nem a esperança ou o conforto da fé. Miseravelmente, restam amizades estropiadas por anos de repetições e tédio e algum apreço por um passado que poderia ter resultado melhor caso não tivesse sido maculado pelo egoísmo e a exploração consentida em relações desajustadas e sem rumo.  
O que o Sr. Considine economiza ou insinua nos deslocamentos espaciais e temporais, revelando a conta-gotas o desdobramento das ações através de uma decupagem criteriosa e sem exageros, nos oferece de sobra em emocionantes interpretações. 
Olivia Colman é um prodígio do desamparo implorando por um abraço. Sua cena de libertação do marido sádico e da constante e obrigatória observação das leis de Deus, atirando objetos na imagem sacra de Jesus Cristo, é das mais catárticas.  
Peter Mullan tem no olhar carisma e  dramaticidade ímpares; consegue evoluir da mais completa irracionalidade, do pit bull que mora dentro de si e insiste em fazer estragos em sua vida e à sua volta - conscientizando-se paulatinamente que isto fatalmente o destruirá - para a luz de uma existência onde as máscaras caíram e as batalhas individuais foram vencidas sob a pena de amargar as punições da lei, mas na certeza de ter levado acabo o que tinha de ser feito. 
Esses dois, que se amparam em suas estreitezas e fragilidades são aquelas pessoas que concretizam o destino conforme suas convicções, depois de levar muita porrada (o termo que melhor define o que impulsiona essas pessoas)  não esperando acontecer através do acaso ou na esperança que alguém venha iluminar os descaminhos da truculência que campeia em cada esquina de uma cidade do interior. A chapa está sempre fervendo, mas o Sr. Considine muito espertamente insere vários chistes na narrativa que aliviam o espectador e economizam bastante energia psíquica.
Tem alguns furos de continuidade, os objetos não acompanham o desenvolvimento das sequências, principalmente a faca, que parece ter vida própria, mas aqui este tipo de descuido é tão irrisório, dada a violência que nos tira o fôlego e nos constrange enquanto seres ditos civilizados, que na desordem geral da existência retratada, não faz muita diferença. É o tipo de filme que se perdoa o boom aparecendo ou a troca da cor da calcinha na mesma sequência. 
O corte da porrada entre marido e mulher para a destruição do galpão no quintal a marretadas é primoroso  e o pitbull amarrado na cintura do vizinho é demais: Um cão atrelado a outro, enquanto os demais vagueiam perdidos, todos da mesma espécie, rosnando a mesma língua. E  quando o paradigma desta brutalidade é decapitado, nos defrontamos com a possibilidade de triunfar sobre o animal que nos espreita.
Lamentável a projeção digital oferecida no cinema Vivo Gávea 2 (Mobz). Não é possivel avaliar fotografia num formato tão deficiente. Pedi a devolução do meu ingresso para a sessão seguinte, que seria o filme "Uma Guerra" (Odna Voyna, de Vera Glagoleva, Russia, 2009) após verificar que o formato da exibição seria algo equivalente a um VHS, segundo o gerente do cinema. 
Das cinco estrelas, quatro.

Sleeping Beauty

SLEEPING BEAUTY
SLEEPING BEAUTY
(Sleeping Beauty)
de Julia Leigh, Australia, 2011


Nunca li Julia Leigh, escritora australiana.





Seu primeiro filme, "Sleeping Beauty", uma espécie de atualização sinistra da história da Bela Adormecida 
está povoado de referências cinematográficas que vão de Pasolini (Salò), Buñuel (Belle du Jour), passando por Kubrick (Eyes Wide Shut), 
a atmosfera dos fimes de David Lynch e quase se afoga bebendo   na cacimba do quintal de Gabriel Garcia Márquez.
Assiste-se a esta história com uma atenção tão siderada e aplicada, a despeito da falta de recursos narrativos tradicionais de impacto fácil, como música incidental por exemplo
(que só se manifesta pelo menos após vinte minutos de projeção começada quando se escuta, lá longe, uma textura muito difusa de órgão e nada além 
- e sempre nos planos em que a Bela é transportada dentro de um automóvel) que experimentamos algo como uma espécie de hipnose provocada pela estranheza geral, 
acompanhando-o com a mesma aguçada atenção do sentido ocular de quando se contempla os quadros de uma exposição macabra.
A protagonista, universitária de múltiplos biscates para fazer frente às suas despesas pessoais (aluguel atrasado, motivo de animosidade em sua casa) 
resolve responder a um anúncio em que procuram moças para um estranho bordel de luxo. Esta oportunidade vai se configurar como tábua de salvação pelo bom dinheiro que oferece 
e adaptar-se como uma luva em sua moral duvidosa e precária auto-estima.
Não se conhece nenhum antecedente desta menina e ela parece flanar pela vida como a platéia deste filme, num estado, digamos, de uma expectativa semialterada. 
No caso da Bela este torpor é provocado ao deixar-se narcotizar a um estado de total inconsciência, quando será visitada pelos abastados senhores de idade avançada 
que pagam para desfrutar de seu "cadáver". O que ali se passa à sua revelia - ou ao contrário, com o seu consentimento - 
é uma sucessão de quadros de perversidades sexuais configuradas em perturbadoras composições pictóricas de uma sofisticação exasperante, 
equivalentes a sessões psicanalíticas de aberrações tardias profundamente arraigadas.
Um desses clientes narra a fábula de um conto contido num livro que ganhou aos trinta anos, 
na qual um homem poderoso resolve se exilar de tudo e de todos, acabando atrelado, apesar de todos os seus recursos, à dependência de alguém que o ampare 
quando seus ossos já não apresentam densidade suficiente para mantê-lo de pé. Conclui, devastado, que aos trinta anos as pessoas ainda são consideradas jovens, 
um passado longínquo da sua história. É o tipo de situação que, por extensão, permeia a falta de conteudo que campeia nas almas alienadas que transitam por este filme. 
Aqui pessoas existem enquanto coisas, objetos de troca e em alguns casos mais específicos, cadáveres. E a servidão é incontornável quando defrontada com o abuso de poder das classes abastadas.
Mas a Bela tem, por assim dizer um namorado com o qual compartilha a reabilitação das drogas mas o qual se afunda em tal depressão, sua vontade própria e seu livre arbítrio estão tão comprometidos 
que aceita imediatamente o pedido de casamanto que ela lhe faz: a Bela acredita que ainda será emancipada do mal-estar em que se afoga, 
seja através das drogas, do sexo casual, sacrificando sua juventude às taras de velhos desconhecidos ou in extremis, no casamento. 
Mas tanto faz se este também não se consume, que este pedido seja aceito ou não. Quando ela refaz esta sugestão a outro homem que a manda se foder, agradece penhoradamente a injúria.
Tudo isto reflete a escassez de afetividade e a escancarada animosidade que cercam e compõem os personagens, impregnando todo o filme com a mesma assepsia e frieza de laboratório e clínica de reabilitação onde a personagem faz seu detox.
Curiosamente aí é que reside a sedução deste filme: o tipo de beleza pictórica antiga da atriz (muito bem em seu papel) é um contraste à servidão humana a que se submete, 
tanto ela em sua juventude quanto àqueles que dependerão futuramente de kindness of strangers. Ou não, apelando para o suicídio, como o narrador da fábula 
na sessão em que a Bela escamoteia uma câmera para verificar o que se passa durante sua inconsciência sobre aquela cama.
Apesar dela passar grande parte do filme nua e suas cenas serem ambientadas num bordel de luxo, não se vê aqui, nem de longe, nenhum elemento de sensualidade ou erotismo, 
pois todos estão ligados à vida através de pulsões autodestrutivas e o todo parece sustentar-se sobre um fio muito tênue que pode esgarçar-se a qualquer momento devido à sua gradativa descalcificação. 
Ficamos ali ligados na iminência de que isto aconteça, apostando no pior, no fim, com alguma inquietação mas inexoravelmente passivos.
De cinco estrelas, quatro: uma estréia corajosa, uma atriz competente, uma configuração diferenciada para uma história para lá de manjada e uma atmosfera envolvente em sua estranheza.
Há uma entrevista de Julia Leigh aqui neste blog sob o título "Deu na revista Filmmaker"

De Como Um Baiacu Merecido Vale Trocentas Vezes Um Jabuti Atravessado


Admiro este escritor, simples, econômico, inspirado e refinado.

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Meu gato e os búlgaros

14 de outubro de 2011 | 3h 07

Milton Hatoum - O Estado de S.Paulo

O leitor talvez conheça o baiacu, ou os sabores desse peixe de água doce e salgada. Eu conheço outro: o Baiacu de Ouro, um prêmio literário que recebi em Manaus, há uns 20 anos.                                                                                                                                                  
Um dia alguém me telefonou e deu a notícia. Agradeci com duas palavras e soube, aliviado, que eu não ia fazer um discurso na solenidade da entrega. Minha surpresa maior foi o envelope balofo que recebi junto com o Baiacu. Não era um cheque, era dinheiro mesmo, um monte de notas velhas e amassadas, como se recebe no garimpo. Mas como a inflação naquele ano beirava a obscenidade, a ponto de desmoralizar os brasileiros, meu ânimo arrefeceu. O valor do prêmio era segredo, e este garimpeiro de palavras não ia contar em público o valor do trabalho privado. Tive que ouvir um discurso, que felizmente foi breve, e mesmo brevíssimo, sem firulas e salamaleques. Depois quatro músicos interpretaram o Quarteto n.º 1, de Villa-Lobos.                                         

Eram músicos búlgaros, todos loiros e rosados, e todos usavam um traje a rigor na noite abafada. O envelope gordo não entrava no meu bolso, tive que segurá-lo o tempo todo enquanto ouvia o primeiro movimento do Quarteto do grande compositor. Depois do "Canto Lírico" me entreguei a um devaneio: não fosse a queda do Muro de Berlim, esses virtuosos das cordas não estariam interpretando com esmero "Melancolia" diante de um escritor emocionado, que apalpava um envelope obeso. Esses músicos são a maior contribuição da queda do Muro para o Amazonas, pensei, prestando atenção à harmonia, vendo mãos búlgaras movimentar arcos e beliscar cordas, o suor escorrendo de faces e orelhas do país dos Bálcãs, até gotejar no assoalho de uma cidade amazônica. Aplaudi de pé, o coração disparado.                                                                                                
Quando saí da sala, abri o envelope, contei as cédulas de cruzados e cheguei a um valor que dava para alimentar meu gato por três meses e ainda levá-lo a um bom veterinário. Leon, Leon, meu querido e inesquecível felino de rua, agora aos meus cuidados e, de agora em diante, com a pança cheia e uma consulta marcada. A pelagem da cor de açafrão, o olhar aceso e misterioso, o miado rouco e indômito, tudo nele lembrava um filhote de onça vermelha.                                                                                                                         
Algo dentro de mim - talvez minha esperança teimosa - dizia que a estatueta do Baiacu de Ouro fosse realmente de ouro. Bom, o peixe inteiro de ouro maciço seria pedir muito, mas de ouro pelo menos as barbatanas, de ouro uma pontinha da cauda ou um dos olhos. Mas não: era uma estatueta de latão, toda dourada: mera fantasia para um escrevinhador de mundos fantasiosos.                                                                                               
Comprei muitos jaraquis para o meu Leon, dei-lhe uma cama digna e um colchão novo: pedrinhas brancas e polidas, que nem ovos de codorna. Enfim, dei a Leon o próprio Baiacu, para que ele sonhasse com um peixe enorme, fora d'água. A estatueta, cravada num cubo de madeira, prendia a porta aberta do balcão, assim evitaria o barulho quando o vento enraivecia. O bater de portas é um dos grandes traumas da minha infância, quando esse barulho seco, terrível e inesperado me sobressaltava em noites de tempestade. E como a porta do balcão era a única rebelde do meu lar, designei a estatueta para ser sua sentinela diuturna. Lembro que Leon aproximava-se do baiacu, eriçava as orelhas e afiava as garras, ensaiando o salto certeiro. Quando entardecia, os raios de sol, mais amansados, incidiam magicamente sobre o latão, criando reflexos estranhos que enfeitiçavam o felino. Penso que ele não via apenas um baiacu, via também cardumes cintilantes, refletidos no vidro da porta; talvez visse uma possibilidade real de nunca mais passar fome, como milhões de gatos de rua, seus semelhantes paupérrimos, sem prêmios, sem consultas, afagos ou jaraquis. Sem nada. E quando Leon decidiu dar o bote fatal e abocanhar sua presa, percebeu que esse peixe era de mentira, como se dissesse que os prêmios, de algum modo, são apenas fantasias fugazes.                                                                                                                                                  
 O tempo passou, Leon ganhou um epitáfio escrito pela minha pena, e a estatueta de latão extraviou-se numa de minhas mudanças. E a vaidade daquele tempo, uma vaidade tão grande que parecia inchada, secou por completo.



quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O Cavalo De Turim

(A Torinói Ló)
de Bela Tárr, Hungria, 2011




A princípio uma voz gutural enuncia a história na qual Nietzche , morando em Turim em 1889, foi buscar sua correspondência no correio deparando-se  no caminho com um cavalo sendo brutalmente espancado após empacar atrelado numa carroça. Repentinamente o filósofo saltou com todo seu corpanzil e vasto bigode sobre o animal vertendo lágrimas convulsivas, abraçando seu pescoço. Foi socorrido e conduzido para casa onde ao chegar bradou para sua mãe: "Eu sou um idiota!". Depois não emitiu uma só palavra durante dois dias e viveu “louco” seus últimos dez anos, envolvido em silêncio, cuidado pela mãe e pelas irmãs.
na mais completa escuridão.

A partir de então este cavalo fustigado carrega seu carroceiro por uma estrada tomada por densas brumas e uma ventania infindável que soprará incansavelmente durante as mais de duas horas da projeção deste filme, "um vento seco sobre a terra estéril"  - se não for o principal, certamente um dos principais personagens deste filme admirável em vários sentidos:
Na sua opção de ater-se ao side show da propalada loucura do filósofo privilegiando o irracional em detrimento do gênio atormentado (ou seriam equivalentes?); na deliberada opção em isolar-se num ermo com três seres que contemplam o fim do mundo que se precipita (o cavalo, um pai e a filha); e pela forma como as mesmíssimas ações rotineiras são repetidas num intervalo de seis dias sem que um único plano se repita ou uma única sequência se apresente da mesma forma, deixando-nos a impressão de que não há limites para a criatividade cinematográfica de Bela Tárr. 

Fica evidente o quanto as lições da maestria com que seu conterrâneo Miklós Jancsó realizou seu  esplêndido "Os Sem Esperança" (Szegénylegények, Hungria, 1966) foram devidamente assimiladas: aqui não há nenhum fim de mundo pasteurizado e embrulhado em imagens-clichês como em "Melancolia" (Melancholia, de Lars Von Trier, Dinamarca, 2010).
No primeiro dia expõe-se o cotidiano ritualizado em que as ações são executadas, uma existência esvaziada de sentido afora os afazeres iminentemente práticos de susbsistência: desatrelar o cavalo, recolhê-lo ao estábulo, alimentá-lo, guardar a carroça, trocar a roupa do pai, o cozimento e a degustação das batatas - único alimento -, a manutenção dos equipamentos domésticos, do vestuário, do trabalho e acima de tudo e principalmente, a obssessiva contemplação do vento lá fora, uivando incansavelmente em sua obstinada viagem de varrer os últimos recursos de um planeta que tornou insustentável a vida sobre si, dentro dos  próprios corpos de seus habitantes ou mesmo de suas almas. 

A cada dia subsequente as mesmas ações vão-se esvaziando, a  câmera dança terminando sempre detida em deslumbrantes composições de naturezas-mortas dos objetos cotidianos; o cavalo que resiste ao trabalho, empacado, sem sair do estábulo e que já não come, assim como as batatas de seus donos que parecem não mais apetecê-los, restando abandonadas sobre a mesa rústica. Estes seres estão cada dia mais mobilizados pela iminente catástrofe que se avizinha. 
No terceiro dia chega uma espécie de emissário do apocalipse, que ao proferir a única fala de fôlego em mais e duas horas de projeção recebe como réplica do pai a constatação do fim: "Sim. E daí?". 
Qual a novidade daquela anunciação? Ali dentro, a obstinada repetição já configura a ausência do sentido transformador e de continuidade da espécie. Tudo já secou, inclusive o poço cuja água, fonte da vida, exaurida após a passagem de uma carroça de ciganos gozando na esbórnia os últimos estertores de suas existências claudicantes como a da leitura bíblica que anuncia a punição e a ira divina aos homens que  atentam contra as leis divinas .
Acossados, um dia pai e filha tentam fugir e não conseguem, voltando sem explicações do meio do caminho, encerrando-se novamente em seu bunker.
De repente no último dia  o vento cessa e a escuridão açambarca tudo. São inúteis as tentativas de iluminá-la, o fogo não obedece, os combustíveis são funcionam, as brasas se apagam. Estão devastados todas as esperanças, todos os sonhos e ilusões que houveram um dia. Não há mais como nem com o que remediar os personagens ou a história contada neste filme, muito menos seus espectadores, irremediavelmente condenados a sucumbir às trevas de um fade out.
A delicadeza em que se encerram estes magníficos planos de contrastantes imagens preto-e-branco, e os frequentes momentos em que  nos aprofundamos em suas trevas, somados à cantilena monocórdica minimalista que perpassa tudo incessantemente, oferece-nos oportunidades para que além da fruição daquilo que nos é oferecido possamos digerir uma cadeia de significados e sugestões que se impõem de forma tão espontânea e orgânica, que saímos deste filme com a nítida impressão de que este nos seguirá acompanhando e não esquecidos dele na primeira esquina,  como se nos tivéssemos transformados em anjos (como diria Tarkovski em relação às modificações que sofremos quando nos deixamos subjugar e alimentar pela experiência da arte e os ideais que ela expressa), ou confrontando a força de nossas consciências com essa escuridão, como num certo dia nelas mergulhou aquele ilustre, louco e genial pensador.

Cinco estrelas são muito poucas para este filme e nem sei se cotação é algo que se preste a uma aproximação com ele.


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O Dublê Do Diabo

Estava como sempre animadíssimo à espera da edição 2011 do Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro e brochei geral ao verificar que os filmes que eu mais aguardava estavam fora do certame, ou seja, 
"Faust", de Alexander Sokurov,
"Pina", de Win Wenders,
"Shame", de Steve McQueen,
"Rampart", de Oren Moverman,
"The Descendants", de Alexander Payne,
"Footnote", de Joseph Cedar,
"Once Upon A Time In Anatolia" de Nuri Bilge Ceylan,
"The Artist", de Michel Hazanavicius,
"The Kid With A Bike", dos irmãos Dardenne,
"Sleeping Sickness", de Ulrich Köhler,
"Carnage", de Roman Polanski,
"360", de Fernando  Meirelles, etc., etc., etc., ...
Contornada a frustração, embarquei no ...
Resto:

1 - O DUBLÊ DO DIABO
(The Devil's Double)
de Lee Tamahori, USA, 2011


Filme de ação americano ambientado durante a guerra do Kuwait, caracterizando a mafiosa - à moda dos criminosos italo-americanos - famíla de Saddam Hussein, seus desmandos, apresentando personagen estereotipados e sem profundidade (o caso mais evidente é o dos dois protagonistas interpretados pelo ator Dominic Cooper, caricaturas de próteses, voz chapada e falsa introspecção, tudo à vez e conforme a necessidade) e lançando mão de uma heroína improvável, mistura de femme fatale com puta triste que no final tenta redimir o herói da moral positiva, o indefectivel arroz de festa do cinema roliudiano.
Um filme extensivo, recheado de planos de localização, o beabá da mais batida cartilha narrativa.
Se fosse podado de todos seus excessos sobraria um curta-metragem sem muito sentido que, involuntariamente, talvez resultasse em algo interessante.
Tudo ali pega pesado, não só em relação à operação de retratar situações e personagens como também nas concepções plástica e fotográfica (em que pese a horrenda estética recém pós-moderna em voga nos anos 90 onde qualquer diretor de arte ou de fotografia teria que fatalmente navegar num produto com esta ambientação). 
Não aprofunda o tema do duplo, e aqui não há cobrança de algo no nivel de "Quando Duas Mulheres Pecam" (Persona, de Ingmar Bergman, 1966) o que seria uma crueldade, mas que se aproximasse pelo menos de um vizinho de quarteirão, se tivesse um pouco mais de boa vontade, como "A Outra Face" (Face/Off, de John Woo, 1997). O duplo aqui só se justifica  enquanto ferramenta para justificar correrias, tiroteios e luxúria.
O contexto político não passa de pano de fundo: há farta exibição de documentos daquela que foi a primeira guerra "ao vivo" da história, a guerra do Golfo (invasão do Kuwait pelo Iraque), ou guerra do video-game como também ficou conhecida, e que a propósito este filme faz jus pela limitação operacional do seu alcance. 
Não se trata aqui da discussão ou do retrato das relações criminosas e de espionagem de corporações do mundo ocidental com a industria do petróleo e das parcerias nem sempre limpas deste bloco com os paises produtores como em "Syriana - A Industria do Petróleo" (Syriana, de Stephen Gagham, 2005), mas somente da exploração de um evento e situação como matéria para justificação da ideologia imperial dominadora disseminando-se pelo mundo através do cinema, ao demonizar culturas não enquadradas em seu catálogo de referências positivas de bajuladores internacionais.
Depois de muito extender a narrativa com uma profusão de peripécias escabrosas e esgotar todos seus maneirismos exaustivamente repetidos, lá pelos quinze minutos finais é enfiado goela-abaixo dos espectadores a história da puta redimida que proclama - após ter passado quase duas horas trocando perucas, modelitos provocantes, fodendo, cheirando e cobiçando o pau grande do dublê de seu patrão - quando o herói a pergunta, em meio a uma fuga improvável, se tem algum dinheiro na bolsa: "Eu não sou prostituta!". Onde e quando, cara-pálida? Au-de-là des nuages?
Este enredo tardio poderia ter sido espalhado em meio aos desmandos do filho de Saddam, e como opção para eles, mas o roteirista, cansado, optou por um deus-ex-machina - uma filha, coitadinha dela - entregue aos cuidados de uma mãe desprotegida lá nos confins do deus-me-livre. Nesta altura o dublê dá o tiro de misericórdia no filme: "E você só veio me contar isto agora?" 
É de rolar de rir.
Assim expõe-se a miséria humana em configurações mais imediatas de leitura para jogadores de play station, pois aquela vida no grand monde, aquele pó a rodo, os rolex, os breitlings, as sedas e os automóveis que são oferecidos como apelos inalienáveis para uma existência permeada por valores consumistas,  este filme à guisa de crítica subliminar acaba por ratifica-los como um little help for his friends do andar de cima, lugar habitado pelas famílias, sempre elas, em função das quais se travam as guerras, negociam-se os interesses, salvaguardam-se as mães sempre ameaçadas pelos cafetões que facultarão o verdadeiro orgasmo aos seus maridos sanguinários, e onde só existem dois tipos de mulheres: as santas sofredoras, as excluídas, mártires (a noiva estuprada que se suicida em meio à festa do casamento) e as putas aproveitadoras e parceiras que ao fim da jornada são obrigadas a fugir a cavalo para escapar de um destino miserável.
De cinco estrelas, duas.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Exortação a danilogo


Prezado sr. danilogo
Ia passando e não me contive ao ver anunciado na minuta de seu cardápio estes fragmentos de email do seu amigo Bernardo Soares que, pelo visto era entusiasta de um muito antigo colega meu francês a quem devo muita inspiração e respeito, mas não a ponto da apropriação de seu conteudo de forma eufemistica (ma non troppo) como ele...
No mesmo instante me veio à baila o título de um capítulo de Metrôdoros, primeiro discípulo de Epicuro onde se lê :"A causa que reside em nós mesmos contribui muito mais para a felicidade do que aquela advinda das coisas".
Com efeito, no que se lê destas linhas que comentam seus não-atos nesta sua atual passagem, lembrando-me da analise que realizei a respeito desta matéria, gostaria de exortar sua ilustre pessoa sobre a cautela devida em relação ao que à primeira vista um post bem-intencionado pode significar, ou induzir, posto que assim como nosso corpo está envolto em vestimentas, nosso espírito está revestido de mentiras. Nossos dizeres, nossas ações, todo nosso ser é mentiroso, e só por meio desse invólucro pode-se, por vezes, adivinhar a nossa verdadeira mentalidade, assim como pelas vestimentas se adivinha a figura do corpo.
Portanto seguirei procurando meu rumo assim como desejo que o seu traçado o faça defrontar-se com a absoluta clareza a respeito das máscaras que o convívio entre as gentes faz cair no badalar das últimas horas do entardecer.
Trago aqui algumas considerações :

Bastar-se a si mesmo; ser tudo em tudo para si, e poder dizer "trago todas as minhas posses comigo" (Cícero), é decerto a qualidade mais favorável para a nossa felicidade. Sendo assim nunca é demais repetir a máxima de Aristóteles "A felicidade pertence àqueles que bastam a si mesmos" (...) Pois, por um lado, a única pessoa com quem podemos contar com segurança somos nós mesmos e, por outro, os incômodos e as desvantagens, os perigos e os desgostos que a sociedade traz consigo são inúmeros e inevitáveis.
Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grand monde, às fartas e em festanças, pois, quando tentamos transformar nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas.
Antes de mais nada, toda sociedade exige necessariamente uma acomodação mútua e uma temperatura; por conseguinte, quanto mais numerosa, tanto mais enfadonha será. Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: quando se está só é que se está livre.
A coerção é a companheira inseparável de toda sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exata do valor da sua personalidade. pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é. Ademais, qunato mais elevada for a posição de uma pessoa na escala hierárquica da natureza, tanto mais solitária será, essencial e inevitavelmente.
(...) A paz verdadeira e profunda do coração e a perfeita tranquilidade mental, esses bens supremos da terra depois da saude, são encontráveis unicamente na solidão e, como disposição duradoura, só no masi profundo retraimento.
(...) Cada homem é apenas uma pequena fração da idéia de humanidade, e assim precisa ser complementado em muito pelos outros para constituir, em certa medida, uma consciência humana plena. Ao contrário, aquele que é um homem completo, um homem par excellence, expõe uma unidade, não uma fração; por conseguinte, tem o suficiente em si mesmo.
(...) O amor à solidão não pode existir como tendência primitiva, mas nasce apenas como resultado da experiência e da reflexão, dando-se conforme o desenvovimento da própria força intelectual e concomitantemente ao avanço da idade. Disso resulta, de modo geral, que o instinto de sociabilidade de cada um está na proporção inversa da sua idade.
(...) Entretanto, em cada indivíduo, a aumento da inclinação para o isolamento e a solidão ocorrerá em conformidade com o seu valor intelectual. Pois tal tendência, como dito, não é puramente natural, produzida diretamente pela necessidade, mas, antes, só um  efeito da experiência vivida e da reflexão sobre ela, sobretudo da intelecção adquirida a respeito da miserável índole moral e intelectual da maioria dos homens.
(...) Embora haja muita coisa ruim neste mundo, a pior delas ainda é a sociedade(...) salvo raras exceções, no mundo há apenas uma escolha: aquela entre a solidão e a vulgaridade.
É por isto que eu também te observo, entendo e, creia-me, minhas palavras nunca lhe faltarão.

Abraços afetuosos de
 
Arthur Schoppenhauer