terça-feira, 25 de outubro de 2011

Aqui É O Meu Lugar

AQUI É O MEU LUGAR
(This Must Be The Place) de Paolo Sorrentino,  Italia, França e Irlanda, 2011) 



This Must Be The Place se articula em torno da canção de mesmo título composta por David Byrne, diretor musical e compositor de outras canções do filme, gravada nos anos 80 pelos Talking Heads, cuja letra canta:
"Home is where I want to be
Pick me up and turn me round
I feel numb - born with a weak heart
(So I) guess I must be having fun
The less we say about it the better
Make it up as we go along
Feet on the ground
Head in the sky
It's ok I know nothing's wrong... nothing
Hi yo I got plenty of time
Hi yo you got light in your eyes
And you're standing here beside me
I love the passing of time
Never for money
Always for love
Cover up say goodnight... say goodnight
Home - is where I want to be
But I guess I'm already there
I come home she lifted up her wings
Guess that this must be the place
I can't tell one from the other
Did I find you, or you find me?
There was a time before we were born
If someone asks, this where I'll be... where I'll be
Hi yo We drift in and out
Hi yo sing into my mouth
Out of all those kinds of people
You got a face with a view
I'm just an animal looking for a home
Share the same space for a minute or two
And you love me till my heart stops
Love me till I'm dead
Eyes that light up, eyes look through you
Cover up the blank spots
Hit me on the head
Ah ooh"
Esta canção  enseja uma casa, lugar onde estaremos seguros desfrutando do convívio dos que amamos após vagar a esmo com os pés no chão e a cabeça nas nuvens, anestesiados, recolhendo-nos como um animal à procura de um lar em que seremos amados durante um ou dois minutos ou até à morte. É também chamada de "Naive Song", uma canção na contra-mão do inconformismo, um tanto anacrônica neste mundo de desgarrados e desterrados, vítimas caçadoras da utopia da liberdade.
Neste filme esta é a casa para onde o filho pródigo um dia retornará.

Cheyenne é um cantor aposentado do rock gótico em voga nos anos 80, época em que fez fortuna com canções sombrias e desesperançadas, arrebatando platéias mundo afora e que provocou o duplo suicídio de adolescentes segundo ele, mais fracos: seu pesar e sua culpa. Enxotado pelos pais das vítimas do túmulo que mandou erguer em sua homenagem, em cuja lápide inscrevem-se os negros versos de suas canções, Cheyenne faz desta romaria um dos itens de sua atual rotina de aposentado que vive de recursos financeiros aplicados nas bolsas de valores. 
Também estão incluidos o cooper com hora marcada e a dois com sua esposa, companheira e cúmplice, profissional do corpo de bombeiros (Frances McDormand, subaproveitada), a neurastenia tediosa da vida numa mansão projetada em todos os detalhes no estilo gótico, arquitetura, móveis e objetos, e sua diária e infalível tarefa de caracterizar-se como se apresentava ao público naquela época, sua persona artística, uma espécie de caricatura de seu contemporâneo também cantor, Robert Smith do The Cure: rosto coberto por espessa camada de pancake branco, cabelos negros alvoroçados por fixador, olhos lúgubres sombreados de preto e boca fortemente purpurinada de vermelho. Ecce homo. 

Uma feroz caracterização exterior como invólucro da voz permanentemente monocórdia em falsete que se mantém o filme inteiro, no que muitos admitem como um tour-de-force de um ator talentoso, mas que afora caracteristicas exteriores de composição, pelo menos neste filme, não há nuances de interpretação que o projete fora da zona da mesmice. O mesmo ocorreu com Nicolas Cage no filme de Werner Herzog "Vicio Frenético" (Bad Lieutenant, Port of call - New Orleans, Estados Unidos, 2009): acorrentado a uma postura corporal massacrante, avaliado como excelente desempenho, na realidade além de não realçar nenhuma característica além do meramente exterior, ainda propiciava um baita desconforto na coluna do público pagante. 
Chayenne também visita diariamente uma triste e transtornada mãe que aguarda dia e noite na janela de seu sobrado no final da rua, com o telefone na mão e fumando infindáveis maços de cigarros, a volta de seu filho que um dia saiu sem explicações e nunca mais voltou. 
Esta primeira meia hora de filme situa Cheyenne em suas atividades, explica seu background, mas pouco aprofunda a questão de sua mágoa em relação ao suicídio de seus fãs, e quando alguém o pergunta porque não teve filhos, responde que não quis ter uma filha que se transformasse numa maluca fashion stylist, clara alusão a Stella McCarthney. 
Alguns na platéia riem. Parece que este filme dirige-se a esta sorridente platéia-alvo, que vai funcionar perfeitamente dentro deste parâmetro em detrimento do grande público. É uma jogada arriscada levando-se em consideração o montante gasto na brincadeira, filmagem em várias locações no mundo, atores caros e sofisticados elementos técnicos de fotografia e montagem, excelentes, por sinal. 
Um dia chega a notícia que seu pai judeu, sobrevivente dos campos de concentração, morreu em Nova Iorque. Cheyenne que não o vê ou mantém qualquer contato há 30 anos, vê-se obrigado a pegar sua malinha e sair de seu casulo para tratar das questões relacionadas ao espólio, tal como Martin de "Americano" em relação à sua mãe,
começando maaaaais um road movie. Chega de navio, por fobia de avião, e também como Martin, perdendo o funeral. 
Papai deixa instruções num manual com escritos e desenhos para que o filho continue sua caça de uma vida inteira devotada ao nazista que o humilhou no campo de concentração. Chayenne é pego de surpresa numa missão de vingança que foge completamente aos seus princípios e que inexplicavelmente, assim como outros elementos deste filme, ficam sem sentido. 
Consulta um famoso caçador de nazistas para quem enuncia uma das melhores frases do filme, que as leis usadas para a caçada aos nazistas são as mesmas que regem o show business, que apostam todas as suas fichas naquilo que lhes dará maior visibilidade. Estão quites. 
Ao contrário do que se afigurava como algo bizarro na Irlanda, a caracterização de Cheyenne encontra-se em seu elemento nas terras americanas. Ali cada um tem direito à sua cota freak, os obesos, a antiga fã ainda fantasiada de gótica (como muitas) que o reconhece num posto de gasolina, o homem completamente tatuado que encontra num bar de beira de estrada e muitos outros por aí perambulando a salvo de serem condenados a perecer num campo de concentração. Mas não livres da intolerância que ainda vitimiza posturas e ideologias diferenciadas. 
Mas curiosamente é ali que seu pancake começa a dissolver. Longe de casa Cheyenne chora sua orfandade e a distância de seus referenciais em  meio à multidão de um show dos Talking Heads, um plano-sequência muito bem transado de um clip da musica This Must Be The Place.
A partir do momento que sua caçada-road movie começa, observamos a decadência da pesada maquiagem de Cheyenne, a cada dia menos espessa, como se a jornada ao encontro do acerto de contas o fosse despojando do artificialismo desta vida   cinquentona semitravestida, constantemente entorpecida por alguma droga não identificada.
Confronta-se com a dúvida da grandeza ou da mediocridade da consumação das vinganças: a pessoa vingada se transforma num grande homem ou somente dá vazão ao monstro que a impunidade de matar engendra dentro daqueles que gozam deste privilégio? 
Cheyenne sempre repete uma fala, em várias ocasiões: 
"Eu sei que há algo de muito errado aqui, mas não posso dizer extamente do que se trata". 
Eu diria que oque há de errado aqui é a forma circunstancial como esta vertente pseudo-histórica que o filme tangencia é tratada, distanciando-se da questão primordial do recolhimento a uma referência espacial que congrega nossas mais íntimas aspirações, dando vez a um filme dentro do outro onde a perseverança, a teimosia e a obsessão são tratados talvez como um fim em si mesmos e não os efeitos destas posturas na vida de pessoas que assumem empreitadas desta envergadura. 
No caderno, o falecido pai escreveu: "O que se perde quando se encontra dentro dos limites do arame farpado é tranquilidade de ver o céu da mesma forma que o contemplamos quando se está no campo ou desfrutando a vida em família", desvirtuada para sempre porque transformada numa caçada insana em busca de uma vingança.
Também está escrito: "O que se perde quando se está fora dos limites do arame farpado é a capacidade de observar no entremeio da listras da fumaça negra de judeus cremados, o céu que se olhava na infância, quando havia a tranquilidade". 
Uma vez lá fora, este céu estará sempre nublado, tal como quando é encontrado o algoz do pai que, ao invés de matá-lo com a super pistola que comprou, Cheyenne resolve dar-lhe outro tipo de tiro (shoot), um close de câmera fotográfica, e humilhá-lo em troca despojando-o de suas roupas na imensidão gelada do retiro onde forçosamente se recolhe, seu único abrigo possível, no fim do mundo.
Também é um céu nublado que contempla a volta do filho pródigo,  agora completamente de cara limpa, à casa da mãe desesperada, como que para recomeçar. 
Três estrelas: uma para o original, Bob Smith, outra para sua emulação, Sean Penn, e a terceira para a boa vontade do distinto público.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Deu no JB, 24 de Outubro, 2011



País - Sociedade Aberta

A  ilusão de uma economia verde

Jornal do BrasilLeonardo Boff
Tudo o que fizermos para proteger o planeta vivo que é a Terra contra fatores que a tiraram de seu equilíbrio e provocaram, em consequência, o aquecimento global é válido e deve ser apoiado. Na verdade, a expressão “aquecimento global” esconde  fenômenos como: secas prolongadas que dizimam safras de grãos, grandes inundações e vendavais, falta de água, erosão dos solos, fome, degradação daqueles 15 entre os 24 serviços, elencados pela Avaliação Ecossistêmica da Terra (ONU), responsáveis pela sustentabilidade do planeta (água, energia, solos, sementes, fibras etc). A questão central nem é salvar a Terra. Ela se salva a si mesma e, se for preciso, nos expulsando de seu seio. Mas como nos salvamos a nós mesmos e a nossa civilização? Esta é real questão sobre a qual a maioria dá de ombros.  A  produção de baixo de carbono, os produtos orgânicos, energia solar e eólica, a diminuição, o mais  possível, de intervenção nos ritmos da natureza, a busca da reposição dos bens utilizados, a reciclagem, tudo que vem sob o nome de  economia verde são os processos mais buscados e difundidos. E é recomendável que esse modo de produzir se imponha. 
Mesmo assim não devemos nos iludir e perder o sentido crítico. Fala-se de economia verde para evitar a questão da sustentabilidade, que se encontra em oposição ao atual modo de produção e consumo. Mas no fundo, trata-se de medidas  dentro do mesmo paradigma de dominação da natureza. Não existe o verde e o não verde. Todos os produtos contêm nas várias fases de sua produção, elementos tóxicos, danosos à saúde da Terra e da sociedade. Hoje pelo método da Análise do Ciclo de Vida podemos exibir e monitorar as complexas inter-relações entre as várias etapas, da extração, do transporte, da produção, do uso e do descarte de cada produto e seus impactos ambientais. Aí fica claro que o pretendido verde não é tão verde assim. O verde representa apenas uma etapa de todo um processo. A produção nunca é de todo ecoamigável.        
Tomemos como exemplo o etanol, dado como  energia limpa e alternativa à energia fóssil e suja do petróleo. Ele é limpo somente na boca da bomba de abastecimento. Todo o processo de sua produção é altamente poluidor: os agrotóxicos aplicados ao solo, as queimadas, o transporte com grandes caminhões que emitem gases, as emissões das fábricas, os efluentes líquidos e obagaço. Os pesticidas eliminam bactérias e expulsam as minhocas que são fundamentais para a regeneração dos solos; elas só voltam depois de cinco anos.         
Para garantirmos uma produção, necessária à vida, que não estresse e degrade a natureza, precisamos mais do que a busca do verde. A crise é conceptual e não econômica. A relação para com a Terra  tem que mudar. Somos parte de Gaia, e por nossa atuação cuidadosa a tornamos mais consciente e com mais chance de assegurar sua vitalidade.         
Para nos salvar não vejo outro caminho senão  aquele apontado pela Carta da Terra: “O destino comum nos conclama a buscar um novo começo; isto requer uma mudança na mente e no coração; demanda um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal”(final).        
Mudança de mente  significa um novo conceito de Terra como Gaia. Ela não nos pertence, mas ao conjunto dos ecossistemas que servem à totalidade da vida, regulando sua base biofísica e os climas. Ela criou  toda a comunidade de vida e não apenas nós. Nós somos sua porção consciente e responsável. O trabalho mais pesado é feito pelos nossos parceiros invisíveis, verdadeiro proletariado natural, os microorganismos, as bactérias e fungos, que são bilhões em cada colherada de chão. São eles que sustentam efetivamente a vida já há 3,8 bilhões de anos. Nossa relação para com a Terra deve ser como aquela com nossas mães: de respeito e gratidão. Devemos devolver, agradecidos, o que ela nos dá e manter sua capacidade vital.        
Mudança de coração significa que, além da razão instrumental com a qual organizamos a produção, precisamos da razão cordial e sensível que se expressa pelo amor à Terra e pelo respeito a cada ser da criação, porque é nosso companheiro na comunidade de vida e pelo sentimento de reciprocidade, de interdependência e de cuidado, pois essa é nossa missão.  Sem essa conversão não sairemos da miopia de uma economia verde. Só novas mentes e novos corações gestarão outro futuro.
Leonardo Boff é teólogo e escritor. - Caixa postal 92144, Itaipava, 25741-970 - Petrópolis, RJ. - www.leonardoboff.com

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Culpada De Romance


CULPADA DE ROMANCE
(Koi No Tsumi) de Sion Sono, Japão, 2011
Um amigo dizia que pessoas analfabetas e de cultura ilustrativa escassa fazem sexo mais espontâneo, proveitoso e sem censura. 
Se tivesse oportunidade o levaria para assistir "Culpada De Romance", filme japonês, terceira parte da trilogia "Hate" do cineasta Sion Sono, 
filmes baseados em crimes reais (os dois primeiros foram "Love Exposure" e "Cold Fish"- não os vi). 
Em "Culpada de Romance" a perversidade sexual atinge níveis alarmantes justamente no contexto da intelligentzia: 
Professora universitária de literatura (Mitsuko) tem jornada profissional dupla, trabalhando como puta na rua da prostituição. 
Seu passado obscuro inclui pai molestador, pintor decadente que a fez modelo e amante, retratando-a durante todas suas fases de crescimento a despeito da presença de sua mãe, omissa e ultrajada. 
Em seu caminho surge Izumi, esposa entediada, objeto de decoração de um lar monótono, ironicamente sem parceria nem amor de seu marido - escritor de novelas românticas. 
Izumi também escreve, um diário, ao qual promete que no dia em que ela puder preencher todas aquelas horas mortas com algo relevante que a ocupe, deixará de escrevê-lo. 
Não demora muito e com o consentimento do marido, emprega-se como demonstradora de salsichas num supermercado. 
A princípio sua atuação é bastante fraca devido à timidez excessiva de uma mulher recatada, educada nos parâmetros rigorosos da burguesia japonesa. 
Por sua vez, as salsichas vão paulatinamente aumentando o tamanho à medida em que Izumi adquire desenvoltura no métier.
Um dia, porém, é recrutada por uma diretora de elenco a posar para fotos de lingerie e após relutar acaba cedendo. 
Então aquela mulher submissa sem a mínima idéia de seus potencial e capacidade, começa a experimentar estranhas mudanças. 
A cada sessão de fotos e gravações vai-se desnudando cada vez mais e as matérias vão se tornando sexualmente mais explícitas. 
Mitsuko, a professora de vida dupla, atravesa acidentalmente o caminho de Izumi na rua das putas quando esta resolve ceder ao comando de um jovem cafetão que resolve lhe ensinar o caminho das pedras na arte da sacanagem. 
A empatia das duas é imediata e Mitsuko obviamente percebe a oportunidade única que tem de profanar aquela alma incipiente e curiosa resolvida a trilhar os caminhos da putaria. 
Começa então o aprendizado da entrada no inferno do sexo pervetido, das esquisitices e estranhíssimas taras e histerias que os povos orientais sabem retratar como ninguém (quem conhece Nagisa Oshima, Kaneto Shindo, etc. sabe do que estou falando). 
Toda esta atmosfera psicossexual é trabalhada em tons expressionistas cada vez mais enfatizados à medida em que Izumi vai-se descobrindo, com o avanço perverso desta espécie de pseudo-feminista Mitsuko 
- que pratica prostituição não como um sistema masculino de exploração ou escravidão - realizando a fusão do sexual com um tipo de evasão sagrada e psicótica dirigida para o capital -  
tornando-se uma fêmea habilitada na arte de tirar dinheiro de homens sequiosos em penetrar os mistérios de seu corpo até então desconhecido, inclusive para si mesma. 
Seu corpo é a carnação de palavras que ela nunca falou, que nunca ousou entender ou escrever em seu diário, tradução de um texto entre poesia e enigma lecionado por Mitsuko, sempre reiterado, cujos versos dizem: 
"(...) Se eu pelo menos não tivesse aprendido palavras ...
Mas como eu falo japonês e entendo alguma língua estrangeira
Quedo-me imóvel em suas lágrimas (...)": É a tragédia que se anuncia.
Além disso há uma incessante citação do romance "O Castelo" de Fraz Kafka, talvez no intuito de temperar, por afinidade, a narrativa de elementos metafísicos que mais parecem fazê-la perder-se na variedade de suas influências e discursos.
Izumi deixa-se arrastar sem concessões para este vórtice de imagens de inferno sexual conferindo a esta atividade sua luta para alcançar identidade e poder sobre os homens, 
em especial desprezar o marido, mantido sob as devidas aparências. 
Percebe-se que já abandonou seu diário há tempos.
Quanto mais seu corpo é profanado, mais sua alma se acerca de um tipo de entendimento acerca do moralismo e da ignorância que sempre tendem a manter putas em guetos, 
ou reduzidas à escória de junkies que se trocam por drogas ou vagabundas trapaceiras. 
Logicamente este não é realmente o seu caso: conforme as direções de Mitsuko, ela evolui na direção de avaliar a putaria como um tipo de instrumento de contato da civilização contemporânea com a natureza pagã que a sociedade aboliu e afrontar o sistema judaico-cristão do pecado, da culpa e do castigo.  
Até que um dia descobre que seu asséptico marido é um velho cliente de Mitsuko, quando esta perversamente os confronta na rua das putas: 
A cena de voyerismo, violência sexual e dominação que se segue é desconcertante.
Até que um cadáver é encontrado na rua das putas, seccionado em dois e montado, com a ajuda de peças de um manequim, como dois corpos independentes: uma colegial e uma prostituta. 
Existe uma investigadora, Kazuko - a terceira mulher em que se apoia este filme totalmente voltado para o universo feminino em suas mais diversas atividades - 
que aparentemente conduz a narrativa em cinco capítulos, mas que tem seu papel obscurecido pelas sucessivas trocas de foco e estilos narrativos (gore, melodrama, terror, erótico exacerbado, expresionista, etc.). 
Depois de revolver toda a podridão da história Kazuko descobre a referência na qual o assassino se inspirou para a composição da cena macabra: a pintura do papai retratando Mitsuko como estudante secundária. 
Mais um dos fetiches entre tantos neste filme muito peculiar. 
Esta descoberta se deve à invasão da casa da mãe de Matsuko que convida Izumi para uma esquisitérrima cena de desequilíbrio e confronto familiar na qual todas as cartas são postas na mesa. Quando a investigadora vasculha o atelier do falecido pai, 
revela-se a velha mãe ultrajada como autora do bárbaro crime como um gesto de vingança pelos maus tratos e contrangimentos de uma vida inteira de espectadora da dantesca relação incestuosa que degradou sua filha para o submundo. 
Aquela vagabunda merecia morrer, como não?: Mommy dearest!
(...) Se pelo menos Nelson Rodrigues, Jece Valadão e José Mojica Marins aprendessem palavras em japonês, certamente estariam envolvidos nesta estranhíssima sucessão de fotogramas.
A atriz Makoto Togashi (Mitsuko), belíssima, está sempre nua e toda arreganhada e, juntamente com Megumi Kagurazaka (Izumi, idem) protagonizam algumas das cenas mais corajosas e audaciosas que eu já vi num telão.
A investigadora Kazuko, após tudo esclarecido, vai depositar seu lixo doméstico num caminhão coletor, mas este já havia se adiantado, o que a faz segui-lo por alguns quarteirões no intuito de livrar-se de seu lixo até...a rua das putas. 
The End.  
Assisti ao corte do diretor (existe outro, comercial) e confesso que merecia mesmo algumas tesouradas.
Das cinco estrelas, três, uma para cada atriz.




segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Americano

AMERICANO
(Americano)
de Mathieu Demy, França, 2011


Escolhi assistir este filme no Festival do Rio sobretudo por conta de seu elenco de famosidades: Geraldine Chaplin, Chiara Mastroianni, Salma Hayek,etc.
Não se pode negar que o nepotismo sempre esteve na ordem do dia da industria cinematográfica, não importando se o candidato possui talento ou ferramentas para exercer a função, mas quem é, para quem deu ou de onde veio. Isto é uma praxe não só nos paises onde esta industria está mais desenvolvida, como também aqui no Bananal, onde não só na esfera do cinema como nas demais profissões, o que dita as regras na distribuição de cargos das esferas pública e privada, são o Q.I.(quem indica), o pedigree, a rede de contatos, as agremiações e confrarias, o tamanho do pau e o desempenho na cama - elementos determinantes na atuação dos departamentos de Recursos Humanos - não importando o que daí vá resultar pela contratação destes afiliados, ou quais valores agregarão à suas profissões. O importante é que a satisfação dos interesses de classes, nem sempre afinadas com o teor das disciplinas em questão, sejam satisfeitos.
Também é indiscutível o talento de determinados profissionais que emergiram desta onda, como por exemplo Sofia Coppola: a estes expoentes devemos aplausos e entusiasmo renovados.
No caso de "Americano", estão envolvidos a filha de Charles Chaplin, a filha de Marcelo Mastroianni e o irmão mais velho de Javier Barden. Depois me dei conta que o diretor é filho de um casal de ilustres cineastas franceses - Agnès Varda e Jacques Demy.
Em seu primeiro filme como diretor, Mathieu acumula as funções de roteirista e ator, uma espécie de Orson Welles em "Cidadão Kane", infinitamente distanciado deste pelo resultado da empreitada. 
Trata-se da viagem ao passado de um jovem movido pelo atual impasse em seu relacionamento com o personagem de Chiara Mastroianni e pela notícia da morte de sua mãe em Los Angeles, para onde é necessário dirigir-se a fim de resolver as pendências burocráticas decorrentes.
Antes de sua partida o filme em parte nos situa no background do personagem através da ótica paterna, num encontro conflituoso de cobranças e ajuste de contas. Ficamos sabendo que seus pais se separaram na America e o filho seguiu para a França com o pai, onde viveu desde então, sem nunca ter retornado a seu país de origem.
Começa então a jornada de volta ao passado, uma viagem forçada que revolverá desassossegos e impasses mantidos no fundo de uma alma conturbada, relacionados ao Édipo mal-resolvido, raiz de diversos conflitos na atualidade do personagem.
Lá está sua casa da infância, as marcas da mãe que o abandonou idem, e as lembranças não cansam de fustigar seu imaginário. Estas lembranças são fragmentos do filme "Documenteur" de Agnès Varda, 1981, rodado em Los Angeles e estrelado por nosso diretor na idade de 9 anos  (à maneira de como fragmentos de um certo filme dos anos 70 com Terence Stamp ou David Hemmings - ou quem? - do qual não me lembro o nome, perguntem ao dr. Alemão), foram engenhosamente inseridos como flash-backs da ação de uma produção mais recente. 
Isto torna este filme em parte auto-biográfico, ou dentro de estreitos limites, lavação da roupa suja da rejeição. As cenas antigas são retrabalhadas na atualidade, exibindo o que aconteceu com aqueles personagens desde então, o escritor a quem o menino vai pedir abrigo quando sua mãe o deixara na rua, e principalmente um velho retrato em que mãe e filho aparecem ao lado de uma menina mexicana, amiga de infância. 
Descobrimos que esta dempenhou um papel importante na vida da mãe, e a ela sua mãe devotou seus cuidados na ausência do filho, através de uma carta recomendando torná-la herdeira de sua casa. 
Martin (este o nome do personagem principal) precisa encontrá-la e seguindo algumas pistas empreende uma jornada ao México, onde supostamente Lola, a mexicana, é dançarina do cabaré "Americano" em Tijuana.
Este tipo de jornada para um personagem tímido e frustrado  como Martin, revela-se um manancial de peripécias. 
Ele se vê engolfado pelo buraco negro da miséria humana relacionado à pobreza e às profundezas abissais de vidas marginalizadas. Ninguém entra impunemente em Tijuana dirigindo um Mustang vintage e procurando uma pessoa desaparecida. Na tentativa de aprofundar sua procura, Martin é roubado, espancado e humilhado sexualmente. Pudera!
Encontrando o cabaré Americano, Martin imediatamente é apresentado à Lola (Salma Hayek, impressionante composição, rebolando numa peruca vermelha e um collant arrastão preto, somente), mas antes que ele se dê conta do quão fake ela é enquanto Lola, nós espectadores já estamos carecas de saber disso, seja pelo maniqueísmo com que se representam aquelas bailarinas de pole dance, pelo artificialismo da empostação geral ou pelo ar viciado que se respira naquele estabelecimento onde não se dá um passo sem que seja exigido pagamento em dólares. 
Martin/Mathieu parece querer criar uma verdade pessoal através de um roteiro coalhado de mentiras. Ali nosso herói perde o rumo, assim como para onde o filme até então parecia se encaminhar. 
É nesta encruzilhada de três países, três línguas, uma personagem dupla e um homem perdido, que se configura o momento da tomada de decisão.
A falsa Lola é a única que propicia a Martin um lampejo daquilo que ele busca desesperadamente: o amor, o reconhecimento e a dedicação de uma mãe ausente. Prostitutas são sagazes em gerenciar intuição e fantasias que fazem um estranho gozar. De posse desta falsa informação nosso herói torna-se adicto do quarto dos fundos do Americano, não em busca daquele orgasmo convencional, mas do vicio adquirido da sublimação de suas carências edipianas.
Martin se defronta com o túmulo da verdadeira amiga de sua mãe, quando descobre a real identidade da bailarina. 
Para resolver sua falta de controle da história e do filme como um todo, o herói deixa, então, a escritura do apartamento americano para aquela que o fez experimentar esta felicidade fugaz. 
Telefona para sua mulher na França, após ter faltado ao sepultamento de sua mãe, e suas palavras são tão eloquentes em afeto e humanidade, que ela parece não reconhecê-lo. Pergunta: "Vc está bêbado?" 
Afogam-se no alcool as identidades e as histórias, tanto as do personagem quanto as do diretor, hipotecando a uma quimera toda a herança adquirida em linha direta de transmissão, pela forma negligente de que se apropriou do legado cinematográfico e pela precariedade dos recursos pessoais de como se aproximou da relação entre ficção  e realidade. 
De cinco estrelas, três.

domingo, 16 de outubro de 2011

Políssia


POLÍSSIA
(Poliss) de Maïween, França,2011


Dize-me de quem contas uma história que eu te direi de qual cultura estás falando.
Impossível não evocar "Entre Os Muros Da Escola" (Entre les Murs, de Laurent Cantet, França, 2008), Palma de Ouro em Cannes 2008 ao assistir a este "Políssia". Na nova onda de diretores e filmes franceses focados nas diferenças, desequilibrios e conflitos sociais advindos da imigração e do acolhimento aos povos de antigas e atuais colônias, a fórmula do filme-painel circunscrito a um cenário determinado parece ter-se estabelecido, como em "O Segredo Do Grão" (La Graine et Le Mulet, de Abdellatif Kechiche, França, 2007) num restaurante, "Entre Les Murs..." na escola pública ou neste "Políssia", na Brigada de Proteção aos Menores da polícia francesa em Paris. 
Aqui vemos desfilar molestadores, sequestradores, espancadores, traficantes, pais negligentes, mães omissas ou drogadas, e toda sorte de delinquentes juvenis que infestam profissionalmente e infernizam individual e gradativamente as vidas daqueles funcionários, transformando e interagindo em seus cotidianos: É a esposa que decide engravidar tardiamente ocupada em cuidar-se e manter o regime alimentar adequado (apesar da incredulidade do marido); é o pai que pouco se dedica à filha que vive com a mãe abandonada e cobradora, etc. todos respingados pela grande merda espalhada aos sete ventos pelo ventilador do sofrimento de crianças (quase sempre) indefesas.
Estes profissionais não abdicam da paixão que nutrem por seu trabalho. E não desistem, apesar dos conflitos internos e de grandes dificuldades operacionais e burocráticas, de levar em frente sua missão, com um sentimento de nobreza e sentido de dever de fazer inveja e servir de exemplo às instituições policiais corrompidas brasileiras, afundadas em bandas podres, nepotismos, formação de milícias, tráfico de drogas e abuso de poder. Talvez seja um retrato por demais idealizado de uma corporação, focado em vítimas e no envolvimento dos profissionais, mas não podemos deixar de comparar este quadro com a trágica realidade quer nos circunda.
O filme tem ritmo bastante ágil, é intenso como um documentário e parece pedir socorro para uma sociedade de primeiro mundo afundando junto a familias sem teto, traficantes e exploradores da pedofilia sob o acolhimento acelerado de cidadãos coniventes e abrigados por desmandos de classes privilegiadas e bem relacionadas. 
O suicídio da policial que sonha em engravidar após uma discussão explosiva de ressentimentos ocultos no trabalho e sua posterior promoção profissional não se justifica. O desenvolvimento psicológico do personagem fica prejudicado pela necessidade de abreviar seus conflitos como os de todos os outros que também são enunciados e não se aprofundam. Com sua dificuldade de equilibrar a realidade dos conflitos da profissão e as vidas privadas, o filme de Maïween aproxima-se dos seriados televisivos ambientados nesta seara, um formato que privilegia o imediatismo e a leitura superficial. 
De cinco estrelas, duas.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Maytland


MAYTLAND
(Maytland)
de Marcelo Charras, Argentina, 2010


Victor Maytland é o nome artístico de Roberto Sena, conhecido diretor de filmes pornográficos na Argentina, autor daquele que foi o primeiro filme deste gênero naquelas plagas, "Las Tortugas Pinjas". 
Desde sempre ocupado nesta função e contornando as dificuldades de sustentá-la junto à familia - filhos e esposa - ou mesmo junto à classe cinematográfica de seu país (começou trabalhando no cinema convencional como assistente, produtor, etc. e costumava dizer que queria ser como Aristarain), acabou fazendo sucesso com uma séria pornô televisiva intitulada "Expediciones Sex" cujos capítulos foram transmitidos pelo canal a cabo Afrodita. 
Isto resultou num contrato para produzir e dirigir 60 filmes pornôs na produtora CineXlatino em Los Angeles distribuidos em 3 categorias: Cine 69 (heterossexual), Puticlub (travestis) e Latin Puppies (gay).
De volta à terrinha, Vitor resolve fazer um filme não-pornográfico em que narra suas atribulações como um diretor que sonha em inovar a forma de filmar o pornô, com fábula e roteiro, um sonho antigo que sempre esbarrou em negativas de financiadores que nunca concordaram em fazer algo além do trivial que sempre lhes rendeu lucro, sexo sem cortes e sem história.
Tudo se passa em ambientes decadentes e pobres, desde as locações até ao figurino, mesmo quando estão vestidos socialmente. A produtora fica num subterrâneo fétido, desarrumado e empoeirado; a casa do personagem que vive com seu filho é uma ruína úmida descuidada, alguns pés de maconha que Victor cuida nas horas vagas e  uma suja banheira de plástico sobre algo que se poderia chamar de terraço, que o acomoda para jiboiar sua imensa barriga, só ligeiramente maior do que a do brochado ator protagonista de suas aventuras sexuais na tv. 
Intencionalmente. 
Victor quer misturar nas representações de suas fodas a história trágica da repressão ditatorial de seus país, dos campos de extermínio, dos desaparecidos. 
O produtor reluta porque, mesmo que os milicos estejam sem o poder daquela época, não quer chafurdar nas feridas ainda abertas, além de que seu público de punheteiros não se interessa absolutamente pela memória histórica, quando muito nas imagens gráficas e sugestões olfativas do sexo em ação. Reescreve o roteiro que Victor concebeu como uma obra de despedida, um canto de cisne que vai superar tudo jamais feito. É claro que tal interferência não é aceita, e Victor acaba salvo pelas economias do filho, que, acompanhando toda esta odisséia resolve disponibilizá-la sob protestos deste pai que nunca acedeu à sua participação em suas produções, apesar da insistência dele, como tributo à memória da falecida mãe e esposa que em vida nunca perdoou o marido por suas escolhas profissionais. Aqui temos mais uma vez a mãezinha morta, sofredora e intransigente, capaz de melar toda uma história, brochar pirocas duras, tirar tesão dos protagonistas e assombrar um filme inteiro. 
Luciano, o filho, é o personagem que vai impulsionar não só o derradeiro filme de seu pai como também decifrar os mistérios subjacentes ao sumiço das cópias de seu primeiro filme, "Las Tortugas Pinchas", do qual aparentemente só existe uma caixa vazia de VHS numa vitrine de preciosidades pornôs lacrada  num quiosque de Buenos Aires, onde ele passa horas diariamente admirando-a obcecado.
Aqui temos um filme de formato incomum, dificilmente catalogado em algum escaninho crítico cinematográfico: interpretado pelo personagem real fazendo seu próprio papel, contando os fatos de suas próprias dificuldades pessoais na industria audio-visual e fantasiando, com os atores de seus antigos seriados, uma história de amor e mistério que ao final resvalaria facilmente para um docudrama ou algo que o valha,  mas deixa-nos com um ponto de interrogação e um ruído considerável na comunicação da história contada e naquilo que a produção se propôs. Talvez seja um legítimo representante do que atualmente chamamos autoficção.
Aqui não se poupa esforços em disfarçar a decadência das coisas, das pessoas e do próprio filme que, filmado digitalmente, nos fornece através da projeção precária em que o assisti, das legendas eletrônicas dessincronizadas e do som abafado, um fenômeno orgânico hiperrealista da boca-do-lixo, um acontecimento cultural (ou social) entre espectadores e o filme mediatizado por suas imagens, envolvendo-os  involuntariamente numa experência, digamos, interativa.
De cinco estrelas, duas.

Tiranossauro


TIRANOSSAURO
(Tyrannosaur)
de Paddy Considine, Reino Unido, 2010


Aqui se opera o milagre da redenção, da emancipação, da superação de vidas amargas e destituidas de afeto, atravessadas pela violência cotidiana de uma existência onde já não resta nem a esperança ou o conforto da fé. Miseravelmente, restam amizades estropiadas por anos de repetições e tédio e algum apreço por um passado que poderia ter resultado melhor caso não tivesse sido maculado pelo egoísmo e a exploração consentida em relações desajustadas e sem rumo.  
O que o Sr. Considine economiza ou insinua nos deslocamentos espaciais e temporais, revelando a conta-gotas o desdobramento das ações através de uma decupagem criteriosa e sem exageros, nos oferece de sobra em emocionantes interpretações. 
Olivia Colman é um prodígio do desamparo implorando por um abraço. Sua cena de libertação do marido sádico e da constante e obrigatória observação das leis de Deus, atirando objetos na imagem sacra de Jesus Cristo, é das mais catárticas.  
Peter Mullan tem no olhar carisma e  dramaticidade ímpares; consegue evoluir da mais completa irracionalidade, do pit bull que mora dentro de si e insiste em fazer estragos em sua vida e à sua volta - conscientizando-se paulatinamente que isto fatalmente o destruirá - para a luz de uma existência onde as máscaras caíram e as batalhas individuais foram vencidas sob a pena de amargar as punições da lei, mas na certeza de ter levado acabo o que tinha de ser feito. 
Esses dois, que se amparam em suas estreitezas e fragilidades são aquelas pessoas que concretizam o destino conforme suas convicções, depois de levar muita porrada (o termo que melhor define o que impulsiona essas pessoas)  não esperando acontecer através do acaso ou na esperança que alguém venha iluminar os descaminhos da truculência que campeia em cada esquina de uma cidade do interior. A chapa está sempre fervendo, mas o Sr. Considine muito espertamente insere vários chistes na narrativa que aliviam o espectador e economizam bastante energia psíquica.
Tem alguns furos de continuidade, os objetos não acompanham o desenvolvimento das sequências, principalmente a faca, que parece ter vida própria, mas aqui este tipo de descuido é tão irrisório, dada a violência que nos tira o fôlego e nos constrange enquanto seres ditos civilizados, que na desordem geral da existência retratada, não faz muita diferença. É o tipo de filme que se perdoa o boom aparecendo ou a troca da cor da calcinha na mesma sequência. 
O corte da porrada entre marido e mulher para a destruição do galpão no quintal a marretadas é primoroso  e o pitbull amarrado na cintura do vizinho é demais: Um cão atrelado a outro, enquanto os demais vagueiam perdidos, todos da mesma espécie, rosnando a mesma língua. E  quando o paradigma desta brutalidade é decapitado, nos defrontamos com a possibilidade de triunfar sobre o animal que nos espreita.
Lamentável a projeção digital oferecida no cinema Vivo Gávea 2 (Mobz). Não é possivel avaliar fotografia num formato tão deficiente. Pedi a devolução do meu ingresso para a sessão seguinte, que seria o filme "Uma Guerra" (Odna Voyna, de Vera Glagoleva, Russia, 2009) após verificar que o formato da exibição seria algo equivalente a um VHS, segundo o gerente do cinema. 
Das cinco estrelas, quatro.

Sleeping Beauty

SLEEPING BEAUTY
SLEEPING BEAUTY
(Sleeping Beauty)
de Julia Leigh, Australia, 2011


Nunca li Julia Leigh, escritora australiana.





Seu primeiro filme, "Sleeping Beauty", uma espécie de atualização sinistra da história da Bela Adormecida 
está povoado de referências cinematográficas que vão de Pasolini (Salò), Buñuel (Belle du Jour), passando por Kubrick (Eyes Wide Shut), 
a atmosfera dos fimes de David Lynch e quase se afoga bebendo   na cacimba do quintal de Gabriel Garcia Márquez.
Assiste-se a esta história com uma atenção tão siderada e aplicada, a despeito da falta de recursos narrativos tradicionais de impacto fácil, como música incidental por exemplo
(que só se manifesta pelo menos após vinte minutos de projeção começada quando se escuta, lá longe, uma textura muito difusa de órgão e nada além 
- e sempre nos planos em que a Bela é transportada dentro de um automóvel) que experimentamos algo como uma espécie de hipnose provocada pela estranheza geral, 
acompanhando-o com a mesma aguçada atenção do sentido ocular de quando se contempla os quadros de uma exposição macabra.
A protagonista, universitária de múltiplos biscates para fazer frente às suas despesas pessoais (aluguel atrasado, motivo de animosidade em sua casa) 
resolve responder a um anúncio em que procuram moças para um estranho bordel de luxo. Esta oportunidade vai se configurar como tábua de salvação pelo bom dinheiro que oferece 
e adaptar-se como uma luva em sua moral duvidosa e precária auto-estima.
Não se conhece nenhum antecedente desta menina e ela parece flanar pela vida como a platéia deste filme, num estado, digamos, de uma expectativa semialterada. 
No caso da Bela este torpor é provocado ao deixar-se narcotizar a um estado de total inconsciência, quando será visitada pelos abastados senhores de idade avançada 
que pagam para desfrutar de seu "cadáver". O que ali se passa à sua revelia - ou ao contrário, com o seu consentimento - 
é uma sucessão de quadros de perversidades sexuais configuradas em perturbadoras composições pictóricas de uma sofisticação exasperante, 
equivalentes a sessões psicanalíticas de aberrações tardias profundamente arraigadas.
Um desses clientes narra a fábula de um conto contido num livro que ganhou aos trinta anos, 
na qual um homem poderoso resolve se exilar de tudo e de todos, acabando atrelado, apesar de todos os seus recursos, à dependência de alguém que o ampare 
quando seus ossos já não apresentam densidade suficiente para mantê-lo de pé. Conclui, devastado, que aos trinta anos as pessoas ainda são consideradas jovens, 
um passado longínquo da sua história. É o tipo de situação que, por extensão, permeia a falta de conteudo que campeia nas almas alienadas que transitam por este filme. 
Aqui pessoas existem enquanto coisas, objetos de troca e em alguns casos mais específicos, cadáveres. E a servidão é incontornável quando defrontada com o abuso de poder das classes abastadas.
Mas a Bela tem, por assim dizer um namorado com o qual compartilha a reabilitação das drogas mas o qual se afunda em tal depressão, sua vontade própria e seu livre arbítrio estão tão comprometidos 
que aceita imediatamente o pedido de casamanto que ela lhe faz: a Bela acredita que ainda será emancipada do mal-estar em que se afoga, 
seja através das drogas, do sexo casual, sacrificando sua juventude às taras de velhos desconhecidos ou in extremis, no casamento. 
Mas tanto faz se este também não se consume, que este pedido seja aceito ou não. Quando ela refaz esta sugestão a outro homem que a manda se foder, agradece penhoradamente a injúria.
Tudo isto reflete a escassez de afetividade e a escancarada animosidade que cercam e compõem os personagens, impregnando todo o filme com a mesma assepsia e frieza de laboratório e clínica de reabilitação onde a personagem faz seu detox.
Curiosamente aí é que reside a sedução deste filme: o tipo de beleza pictórica antiga da atriz (muito bem em seu papel) é um contraste à servidão humana a que se submete, 
tanto ela em sua juventude quanto àqueles que dependerão futuramente de kindness of strangers. Ou não, apelando para o suicídio, como o narrador da fábula 
na sessão em que a Bela escamoteia uma câmera para verificar o que se passa durante sua inconsciência sobre aquela cama.
Apesar dela passar grande parte do filme nua e suas cenas serem ambientadas num bordel de luxo, não se vê aqui, nem de longe, nenhum elemento de sensualidade ou erotismo, 
pois todos estão ligados à vida através de pulsões autodestrutivas e o todo parece sustentar-se sobre um fio muito tênue que pode esgarçar-se a qualquer momento devido à sua gradativa descalcificação. 
Ficamos ali ligados na iminência de que isto aconteça, apostando no pior, no fim, com alguma inquietação mas inexoravelmente passivos.
De cinco estrelas, quatro: uma estréia corajosa, uma atriz competente, uma configuração diferenciada para uma história para lá de manjada e uma atmosfera envolvente em sua estranheza.
Há uma entrevista de Julia Leigh aqui neste blog sob o título "Deu na revista Filmmaker"