terça-feira, 30 de outubro de 2012

Filmes Tentam Escapar da Irrelevância Cultural



Deu no NYT:
 
Filmes Tentam Escapar da Irrelevância Cultural
Por Michael Cieply

Los Angeles – Em 24 de Fevereiro Hollywood se voltará para o Oscar. Mas parece estar se sentindo como se fosse “A Última Sessão de Cinema” (The Last Picture Show,1971).

A próxima cerimônia de premiação da Academia - a 85ª desde 1029 – se afogará numa piscina de angustia em relação aos filmes e ao que parece ser sua escassa atual conexão com a cultura popular.
Depois do choque do declínio de ingressos vendidos no mercado doméstico no ano passado, 28 bilhões, o mais baixo desde 1995 (e a tendência é só um pouco melhor este ano) o pessoal da indústria do cinema têm lutado silenciosamente para corrigir oque publicamente pode parecer uma falência.
O que significa o controle de Hollywood sobre a imaginação popular, particularmente quando voltada para filmes mais sofisticados nos quais orbita a temporada das premiações.
Vários grupos da indústria, incluindo a Academy Of Motion Pictures Arts And Sciences que premia com o Oscar, e a não comercial American Film Institute, que patrocina o cinema, estão queimando os neurônios em particular, empenhadas no lançamento de campanhas públicas para convencer o público que cinema ainda é relevante.
Isto se evidenciou apenas poucos anos atrás. Mas o clima recrudesceu quando as pessoas da indústria se conscientizaram das mudanças nos caminhos da televisão. Mesmo a maior noite do cinema seguirá aquele padrão: a Academia escalou Seth MacFarlane, um poderoso escritor/produtor de televisão para mestre de cerimônias do Oscar.
“Shakespeare escreveu seus sonetos muito depois desta forma de poema ter saido da moda”, escreveu James Schamus, um roteirista e produtor que também é executivo da Focus Filmes, num email semana passada.
George Stevens Jr., o fundador do American Film Institute, disse que ele nunca deveria se rebaixar “como Cassandra”, numa exposição para membros da Academia de Cinema, ao aceitar seu Oscar honorário no banquete do Governor Awards em 1º de Dezembro.
“Acho que os filmes acharão seu caminho, mas este é um tempo de grandes mudanças”, disse o Sr. Stevens. Ele falou por telefone na semana passada da sua preocupação a respeito da pressão constante sobre exibição em celulares e tablets que estariam embotando o espírito dos filmes. No passado, ele disse – citando “O Homem Que Não Vendeu Sua Alma” (A Man For All Seasons”, 1966, “8 ½” (idem, 1963) e “Rastros de Ódio” (The Searchers, 1956) – havia uma grandeza nos filmes que veiculavam longas histórias sobre as grandes telas.
Mas a prospecção de que um filme vai incorporar-se na consciência cultural e histórica do publico americano na maneira de “E O Vento Levou” (Gone With The Wind, 1939) ou da série “O Poderoso Chefão” (The Godfather, 1972/90) parece enormemente enfraquecida numa época em que o conteúdo em fatias mais finas e os filmes consumidos em grande escala sempre carecem de profundidade.
Enquanto a temporada dos prêmios não se inaugura, os filmes ficam cada vez menores. “The Master”, 2012, um estudo de personagem em 70 mm. muito elogiado pelos críticos, foi assistido por 1,9 milhões e espectadores. Isto é muito menor do que a audiência de um único episódio de programas de TV a cabo como “Mad Men” ou “The Walking Dead”.
“Argo”, 2012, outro competidor do Oscar, teve 7,6 milhões de espectadores durante o fim de semana. Se o interesse do público continuar ele poderá eventualmente empatar                 com a audiência de uma única noite de um episódio de “Glee”.
A fraqueza dos filmes têm múltiplas raízes.
Filmes, enquanto nas salas e exibição, sobrevivem atrás de uma bilheteria; televisão é grátis depois que a assinatura é paga a cada mês. E pelo menos desde a sofisticada série de TV “Os Sopranos” (The Sopranos), as demais aprenderam a segurar os espectadores em longas temporadas de desenvolvimento de seus personagens; filmes fazem o mesmo em franquias de fantasia como a série “Twilight”.
E o colapso das receitas de home vídeo, em parte por causa da pirataria, diminuíram os salários no cinema.                        A televisão, enquanto isso aumentou seus pagamentos, atraindo estrelas do cinema como Al Pacino, Dustin Hoffman, Laura Linney, Claire Danes e Sigourney Weaver.
A venda de ingressos para filmes de gênero como “Busca Implacável 2” (Taken 2, 2012) ou a comédia popular “Ted”, (Idem, 2012), do Sr. MacFarlane continua forte. E um novo público internacional, particularmente da China, deu novo fôlego à visibilidade de blockbusters como o “Os Vingadores” (Avengers, 2012) da Marvel ou “Batman, O Cavalheiro Das Trevas Ressurge”(Dark Knight Rises, 2012).
Mas o número de filmes realizados pelas divisões especiais dos principais estúdios, que apoiaram vencedores do Oscar como “Quem Quer Ser Um Milionário” (Slumdog Millionaire, 2008) da Fox Searchlight, caíram para 37 filmes no ano passado, 55% a menos que os 82 filmes de 2002 de acordo com a Motion Picture Association of America.
Este declínio deixa muitos espectadores desapontados.
“Eles ficam intrigados”, disse o crítico David Denby. “Estão um pouco perplexos”. Ele estava se referindo àqueles que aplaudiram seu argumento – ambos feitos num ensaio da revista New Republic, “Hollywood Matou Os Filmes?” (Has Hollywood Killed The Films?) e em um novo livro, “Os Filmes Têm Futuro?” (Do The Movies Have a Future?) – que a sobrevivência da força dos filmes dependerá da volta dos estúdios às produções mais modestas, mas poderosas em relevância cultural.
“Se não construírem seus futuros, cavarão suas próprias sepulturas”, o Sr. Denby disse.
Sr. MacFarlane; os produtores do Oscar, Craig Zadan e Neil Meron; e o presidente da Academia, Hawk Koch, declinaram através de uma portavoz da Academia, discutir os desafios de celebrar os filmes.
Alguns membros da Academia disseram privadamente que ficaram surpreendidos com a escolha do Sr. MacFarlane para mestre de cerimônias, no que parece ser um aceno aos telespectadores que se aglomeraram em torno do seus sucessos televisivos, notadamente “The Family Guy”.
Mas Henry Schafer, um vice-presidente executivo da Q-Scores Company, que mede a estatística popularidade das celebridades, disse que “Se a ideia é atrair o público jovem, eu penso que eles tomaram a medida correta”.
Ainda, Daniel Tosh, o âncora de “Tosh. O”, uma série de sucesso da Comedy Central apresentando vídeos toscos da internet e ridicularizando seus participantes, deu voz aos céticos: Depois de mostrar um clip de dois homens russos jogando uma granada ao redor de seu próprio barco e explodindo-a o Sr. Tosh sentenciou “É uma ideia melhor do que ter o Sr. MacFarlane como mestre de cerimônias do Oscar”.
A questão em torno do Sr. MacFarlane que dirigiu e emprestou sua voz à boca suja do ursinho “Ted”, (Idem, 2012) - sua principal contribuição ao filme - deixou a Academia coçando-se à procura de caminhos que tragam o público de volta para o tipo de filmes que ela tradicionalmente exalta. Seus membros, por exemplo, têm observado a possibilidade de angariar diretores que tenham realizados filmes ganhadores de prêmios de melhor filme para juntar-se à promoção de uma campanha nos cinemas. Em Los Angeles a Academia também está construindo um Museu do Cinema, uma vitrine para a mídia.
Separadamente, a National Association Of Theatre Owners (Associação Nacional dos Donos de Cinemas) recentemente fez uma enquete com relações públicas e consultores de propaganda para apresentar proposta de um projeto similar.
Membros do Conselho do Film Institute também têm procurado caminhos para promover um novo interesse nos filmes, disse Bob Gazzale, seu presidente. Sr. Gazzale disse ser muito cedo para discutir detalhes, mas outra pessoa elencada na iniciativa disse que o grupo tem considerado fatores tão distantes como aproximarem-se de políticos proeminentes – disse, Bill e Hillary Rodham Clinton – como supervisores de programas para premiações de filmes. A meta seria restabelecer a conexão com espectadores que mudaram suas direções culturais.
Em uma discussão na Colorado State University este mês, Allison Style, uma estudante de jornalismo, sugeriu que a Academia ajudou a quebrar a conexão entre sua geração e grandes os filmes em 2011 quando escolheu “O Discurso do Rei” (The King’s Speech, 2010) que olhava para trás, ao invés de “A Rede Social” (The Social Network, 2010), que olhava para frente.
“Então, o que aquilo significa para nós enquanto cultura?” A Sra. Style alertou para o vácuo que pode ocorrer se os melhores filmes forem embora.
O buraco, disse o Sr. Gazzale para quem a pergunta foi formulada, deve ser dos maiores.
“Os filmes nos recordam de nossos batimentos cardíacos comuns”, falou.
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Brooks Barnes contributed reporting.
Correction: October 30, 2012
Because of an editing error, an article on Monday about Hollywood’s efforts to restore cultural relevance to the movies described incorrectly the decline at the domestic box office last year. The decrease was in tickets sold, to 1.28 billion; it was not a decline in ticket sales revenue to $1.28 billion.
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Para quem quiser ler o original:
http://www.nytimes.com/2012/10/29/movies/hollywood-seeks-to-slow-cultural-shift-to-tv.html?src=dayp




segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Linha de Passe

Encontrei esta resenha do filme de Walter Salles nos meus arquivos abandonados, volta e meia recuperados, e resolvi postá-lo aqui. Às vezes tiro um ou dois dias para atualizar minha experiência de espectador do cinema brasileiro, mas confesso sentir-me constrangido a resenhá-los, muito pelo aborrecimento com o que me deparo e que me faz jurar nunca mais encetar tal bravata, outras vezes pela fugacidade das lembranças de algo que restou na garimpagem de preciosas pepitas que não se encontram em quantidades suficientes nesse panorama a justificar tal esforço. Dito isto:




Filmes Brasileiros Contemporâneos
LINHA DE PASSE (Idem, de Walter Salles, Brasil 2008)

Fui assistir ao filme “Linha de Passe” de Walter Salles e Daniela Thomas, cinema Roxy, 2ª feira passada (hoje é quinta, dia 11 de Setembro de 2008) à tarde, aproveitando o preço promocional de 10 reais naquele dia da semana. Para um filme brasileiro, em plena segunda-feira à tarde até que a lotação menor-que-a-metade-da-capacidade não estava má. Já participei de plateias menos densas em filmes mais apelativos. Pela grana que deve ter sido investida em divulgação, compadrios, prêmios, críticas elogiosas e ostensivas nos cartazes, a coisa está na medida - apesar de que em cinema mais-ou-menos é pouco. 
A primeira coisa que me chamou atenção no filme foram os letreiros em Courier New, fonte padrão playwriting. Causou-me uma expectativa do tipo vou assistir a um filme "de roteiro". Em seguida a mistura de atores profissionais e inexperientes muito bem treinados, adequados ao meio, avessos aos padrões de beleza do cinemão evasivo. Ok: feio também é gente, mas não precisa exagerar! A atriz ganhou a Palma de Ouro - eu me pergunto por que, se aquela naturalidade de sua interpretação é o que se espera de um ator naquele tipo de filme. 
Até aí é cinema. Expliquem-me agora a contribuição ao métier, o que sua performance acrescentou ou a distinguiu. Depois do advento dos coaches brasileiros para atores - porque meteur-en-scène no Brasil conta-se nos dedos, se é que tem - estes talentos cinematográficos instantâneos tornaram-se arroz de festa, celebridades mais efêmeras do que as da televisão, dadas a produção errática, as constantes mudanças na direção dos ventos no acesso aos recursos e a distribuição incipiente no gargalo do encolhimento das salas que permeia o cinema brasileiro em 2008. A indústria áudio visual brasileira é a da televisão. O gosto do público se adapta a esta linguagem acessível que se aprimora e se adapta com espantosa rapidez aos eventos da realidade cada vez mais empolgante do que o alcance dos códigos da midia e sua sintaxe, comprometidos por fatores derivados da sua abrangência. 
A vida útil de uma beldade sem talento das novelas, que grava por dia trinta e cinco cenas a toque de caixa, coach de si mesma, está atrelada à participação das massas que não pagaram ingresso, mas precisam se submeter e digerir sua atuação, servida como iguaria e status de profissionalismo, quando a maioria está ali fingindo emoções e sentimentos. Daí até que a beldade resolva levar a profissão a sério - se é que larga o osso - são outros quinhentos. Estudar e aprimorar-se nunca é tarde seja lá onde ou o que for. Os caminhos é que se bifurcam. 
A detentora da Palma de Ouro, apesar de ter feito o seu trabalho e PT-Saudações, merece o título, o salário, a exposição e os louros que seus diretores não fazem justiça. 
Esqueço os filmes de Walter Salles (excetuando “Terra Estrangeira”), na virada da primeira esquina após a sessão. Em suas epidermes (é o que há) lê-se a marca indisfarçável do relevo social posado, algo entre o colorido pra agradar o patrão e a temática como instrumento de dominação. Não resistem aos dados da realidade. Enquanto houver miséria, esta ridícula distribuição de renda, a falta de atendimento educacional, saúde e acesso aos bens de produção e disseminação cultural, este tipo de cinema brasileiro terá seu quinhão de criatividade
Esta meia dúzia de produtores que se perpetuam e que nada diferem dos coronéis de sempre da quadrilha nacional desde que o samba é jazz, no dia da resolução das nossas mazelas terão que rebolar para o cinema brasileiro recomeçar novamente. Surgirá do saneamento destas gangues o projeto efetivo da identidade fílmica brasileira? E como este povo gosta muito de se exibir - e se baseia nisso - o que será feito para substituir o jeitinho, a bunda de fora e o samba no pé até onde não mais couber?                        
Este é um filme desconchavado, entrecruzando cinco histórias convergentes para a mãe de muitos filhos. O esperado roteiro distribui mal as ações, fragmentando-as e procurando dar a sua esmola a cada personagem. Alguns são mais merecedores do que os outros, mas a ração foi calculada para satisfazer todos por igual. 
Redundante e reiterativo, vários planos desnecessários alongam o que daria um média-metragem interessante (seqüências intermináveis de motoboys trafegando em ruas perigosas, tenebrosas cenas de rituais evangélicos que se repetem ad nauseam). 
Cobre-se rotineiramente o tempo comercial de um longa para barganhar a grana das leis de incentivo das empresas do próprio diretor e cobrar o escorchante preço que se paga pela cultura no Brasil de nossos dias, com oferta de produtos cada vez mais irrelevantes, de gosto duvidoso e longe de cumprir seu papel de formação de plateias distanciando o consumidor da sala de projeção.              
Este filme tem barriga até deitado. 
É linguagem?: Não. 
É um pouco desleixo, um tanto falta de aptidão para a orquestração geral, é fazer várias coisas ao mesmo tempo tentando açambarcar o mundo com as pernas; são as formas arrevezadas e postiças a que se chegam aos projetos e os levam a cabo. 
"Linha de Passe" se ressente da necessidade premente e sagrada de neutralizar o aparato técnico a fim de aprimorar, acredita-se, o naturalismo. Daí seu resultado teso, sua forma dura. Não é a aridez emocional e do sentimentalismo como postulado. Esta a sua contradição involuntária. Suas premissa e realização caminham em sentidos opostos. Se levasse as plateias não às lágrimas (que não é o caso), mas à luta (idem), os cinemas estariam mais cheios e as ruas mais emancipadas. 
É perdida quase a metade de seu potencial expressivo na postura do registro invisível. Neste caso uma câmera ou uma trilha mais participativos recompensariam o espectador tanto na vivência e aprimoramento da experiência daqueles personagens quanto na relação do ator com a tecnologia que o cerca. 
É isto que chamam, tão em voga atualmente, sinceridade
Projetos sociais são meios muito mais efetivos de contemplar a miséria alheia para purgar culpas (sem o red carpet, o charme, a capa de revista).

domingo, 28 de outubro de 2012

Festival do Rio 2012 - G : Marina Abramovic The Artist is Present e Spalding Grey And Everything is Going Fine




MARINA ABRAMOVIC: ARTISTA PRESENTE
(“Marina Abramovic The Artist is Present”, de Matthew Akers, Estados Unidos, 2011)
e
SPALDING GREY : TUDO VAI BEM
(“And Everything Is Going Fine” de Steven Soderbergh, Estados Unidos, 2010)

“A Artista Está Presente” dá um upgrade na recreação infantil que atende pelo nome de “Estátua”, recuperando seu princípio básico da imobilidade e conferindo-lhe o status de obra de arte ao também incorporar procedimentos inerentes à prática da meditação e da yoga. A arte performática da artista sérvia, uma de suas precursoras - atualmente conhecida como a avó da performance - está para a imobilidade das imagens representadas em mídias visuais convencionais assim como as performances de Spalding Grey está para o teatro e a prática psicanalítica.   
Não que aquela deixe de flertar com a arte de atuar e este não de furte a lançar mão da representação iconográfica. As fronteiras que separam estas posturas e investigações de linguagem se confundem com o propósito de deixar os artistas à vontade no controle da pesquisa dos caminhos que os levarão a realizar seus intentos enquanto celebrantes destes rituais de magia
O que em Spalding Grey se aproxima de uma estrutura narrativa autobiográfica, fortemente apoiada nas lembranças e memórias, evidenciando na prática a fusão entre a arte e a vida, em Marina Abramovic verificamos a sensorialidade evocada por sua body art focada em questões sociopolíticas e comportamentais que atravessaram sua existência, expressadas em seu campo de batalha, o corpo. A conjunção destas diversas mídias e disciplinas converge na extinção dos limites territoriais da arte enquanto elemento libertador do ser humano, emancipando-os de espectadores a muitas vezes partícipes ou suportes destas manifestações. 
No filme de Marina, um documentário mais convencional, colocamo-nos a par de suas histórias e de seu passado de luta para preservar sua integridade artística através elementos narrativos didáticos a nos familiarizar com a preparação da exposição que dá nome ao filme e de um apanhado sucinto de sua vida entre os compromissos de divulgação de seu trabalho no universo mundano (que ela chama de lado B - que adora) e a intensa preparação dos jovens artistas que vão recriar suas principais performances enquanto ela, toda poderosa, executará durante três meses a proeza de permanecer imóvel numa cadeira, uma espécie de oráculo, de mãe, de confidente, de psicanalista para os espectadores que terão o privilégio de sentar-se à sua frente para usufruir daqueles minutos fugazes, de sua imaterialidade, da ação (a)temporal, suscitando em cada um as mais diversas reações. É um desfile de suscetibilidades e sensibilidades à flor da pele, de engraçadíssimos freaks pegando carona na performance da outra ao incorporar as suas próprias, etc. Tudo neste filme é feito com o propósito de documentar uma ação, não a performance em questão, mas um tipo de depoimento institucional que o MOMA registrou para as futuros pesquisadores se inteirarem com a organização de sua infraestrutura. 
Já em “Spalding Grey(...)” assistimos, através da mínima intromissão do diretor, à saga que transformou um sujeito disléxico (que conquistou seu primeiro papel no teatro por esta deficiência – o personagem era louco) em um artista que inaugurou uma categoria de arte focada nas vicissitudes de sua família disfuncional elevando sua verborragia descritiva a uma categoria de autodocumentário ou autoficção de standup comedy. Estas categorias parecem ser o rumo que este filme persegue sem se decidir qual partido tomar, como se oferecesse ao espectador a escolha da opção que melhor lhe aprouver. 
À medida que a direção interfere somente na consecução das performances e dos depoimentos do próprio ator - não estabelecendo nenhum partido em função de situar seu território enquanto indivíduo, cidadão ou artista - este filme parece dar aquele salto no vazio fotografado por Yves Klein. A despeito da constante evolução das artes e ciências, da indústria, dos conflitos sociais e por extensão de toda a loucura imposta de fora para dentro da casa de infância, dos percalços que Spalding Grey precisou vencer para achar seu lugar no mundo ou das atribulações reconstituídas por suas performances, “And Everything Is Going Fine” parece aproximar-se da filosofia zen e de uma faculdade imaterial ou invisível de fazer cinema. 
Aqui uma ressalva à legendagem eletrônica praticada nestes filmes do Festival do Rio 2012, uma verdadeira impostura, tanto na qualidade das traduções (literais e em outros casos distorcendo o sentido das falas) e no funcionamento da tecnologia, apesar de em “Spalding Grey(...)” eu reconhecer a quase impossibilidade de mantê-las sincronizadas.
Este post continuráa sendo acrescentado durante alguns dias.


sábado, 27 de outubro de 2012

Festival do Rio 2012 - F: Apenas o Vento, Atrás da Porta e Parada


APENAS O VENTO
(“Czak a Szél”, de Benedek Fliegauf, Hungria/Alemanha/França, 2012)

A intolerância racial e religiosa, a corrida do ouro, a ignorância, o nepotismo, a corrupção, enfim, todos os miasmas que grassam na existência desta maravilha que se convencionou chamar ser humano, são os responsáveis pelas grandes tragédias que submetem as populações menos bafejadas pela sorte à injustiças e perseguições que, mais dia menos dia, voltam ao cartaz tanto na terra quanto no telão.  Sua permanência - a despeito de suas diversas e mutáveis configurações - são programáticas e necessárias ao giro da roda da fortuna dos fazedores das leis, dos ditadores das convenções sociaise à manutenção de cargos de burocratas em  ministérios inoperantes e corruptos. 
O extermínio comandado por milícias é a ordem do dia nesta seara da limpeza étnica, dos desafetos, queimas de arquivos e vozes dissonantes operando em diversos pontos do planeta. Naquele longínquo país de micos e bananeiras do terceiro mundo, todos sabem ao que se refere. Na Hungria, país que aprendemos desde a mais tenra infância ser a pátria dos ciganos, não foge a regra o aparato repressivo que aterroriza as tribos desta etnia perseguida através dos séculos por culturas intolerantes. Meu professor de ginástica quando em Pest repetia que precisava cuidar muito bem da carteira para não ser roubado. Qual a origem deste consenso de que ciganos são ladrões e aproveitadores? O que dizer das massas famintas e deserdadas da terra que marcham pelos tempos através de suas dificuldades para cavar suas subsistências? No que diferem estes cidadãos húngaros da corja de corruptos de colarinho branco amealhada em todos os países, dos pickpockets à solta nas grandes cidades ou dos preços escorchantes que temos de pagar para usufruir aquilo que a Terra nos dá de graça? 
Resposta: A diferença está na escala. 
É muito mais fácil erradicar uma mixaria de meia dúzia de moradias capengas em lugar afastado dos grandes centros, cheia de trabalhadores que se submetem às necessárias tarefas de manutenção das grandes cidades por um salário absurdo e humilhante. E tudo executado com a colaboração, a onisciência e a omissão dos órgãos de segurança. Pensam estar limpando as ruas com a lama das suas ações criminosas. 
O clima de terror e insegurança a que os personagens deste filme estão submetidos é uma perfeita ilustração deste estado de coisas. A falta de estabilidade da câmera na mão nos deixa tão vulneráveis na impossibilidade de estabelecer um chão enquanto espectadores, é o mesmo das agruras que a família de trabalhadores ciganos precisam passar para sobreviver estudando, trabalhando e arquitetando suas defesas. É uma verdadeira febre esta compulsão de, com a entrada no mercado de equipamentos cada vez mais leves, os cineastas optarem por esta postura;  respirei aliviado e dei graças a Deus quando assisti “Bestiário”, um filme todo construído em magníficos planos fixos. 
O menino, herói do filme (é impressionante como a cinematografia contemporânea tem lançado mão da protagonização infantil), constrói seu esconderijo com elementos e objetos subtraídos de sua própria casa e arredores, ciente de que a qualquer momento precisará se esconder dos ataques das milícias que vem dizimando as famílias de ciganos nas redondezas e não pode se separar de suas lembranças e suas raízes. Acredita-se que existe um porco fugitivo da última chacina que, perdido em meio à floresta, torna-se o símbolo da resistência, da encarnação dos ciganos como uma sub raça, animais, encontrado em decomposição com vários tiros em um capão do mato pelo personagem. Seu sepultamento é imbuído da intuição infantil do respeito aos mortos conferidos aos da sua própria espécie, a mesma cerimônia a que os corpos de seus parentes serão submetidos no trágico e constantemente aguardado desfecho deste filme. 
São minutos de constante tensão provocada pela certeza de que o aniquilamento desta família está a caminho. A mãe é interpretada por uma atriz poderosíssima em sua simplicidade, economia de gestos, traços rústicos e no carregamento de tensão na sua máscara facial. É um primor a observação que dá título ao filme, da propriedade da natureza pródiga em escamotear o perigo, confundindo o alarme dos habitantes da casa com a chegada dos milicianos: “É apenas o Vento” - o mesmo tipo de desfaçatez com que aquele casal de velhos em outra situação se referiu a Pat Smith e Robert Marplethorpe: “São só garotos”. 
Na saída ouvi um comentário, “Esperava Mais”. 
Entendo o quanto: A secura e o suspense desta obra não são ostensivamente induzidos por qualquer artifício de roteiro ou direção com o propósito de controlar o interesse do público, mas da interação das plateias com a urgência do tema proposto. Não se trata de espetacularizar o sofrimento ou edulcorá-lo tornando-o palatável a plateias chorosas e clementes pela misericórdia divina. O que se vê aqui é um recorte isento de julgamentos, muito próximo do registro documental. O resto é o vento traiçoeiro. Quatro estrelas.


ATRÁS DA PORTA
(“The Door” de István Szabó, Hungria/Alemanha, 2012)

Aquilo que “Apenas O Vento” economiza na narrativa, este seu conterrâneo, “Atrás da Porta”, não se intimida em esbanjar. Apesar de húngaro em seu pedigree e leitmotiv, este filme realiza a globalização transcultural da contemporaneidade. 
O cinema americano sempre foi pródigo em contar histórias de outras culturas empregando o inglês como matriz narrativa. Esta convenção se firmou no afã da disseminação imperialista de suas mensagens subjacentes. São favas contadas que os espectadores deglutem como pílulas de efeito entorpecente e supostamente necessário para o encurtamento do caminho que vai tornar aquela longínqua cultura numa lenda enfeitadinha sob medida para a ambientação do nosso quintal. 
Esta contrafação é responsável pela negligência e a falta de respeito com as diferenças culturais e emulam uma representação canhestra daquilo que são verdades profundas enraizadas há milênios em seus locais de origem. Foram poucas as vozes dissonantes no período áureo dos estúdios de Hollywood e mesmo após, resultado tanto do apanágio americano em receber os artistas perseguidos pelo totalitarismo fascista em seus países de origem, pela capacidade de absorver suas distintas linguagens operando aquilo que no modernismo brasileiro demos o nome de antropofagia cultural e da oportunidade de, através destas manobras, disseminar sua ideologia de país livre (para aqueles que têm o suficiente para pagar o pedágio). Exemplo notório é o Sr. Michael Kertész, diretor húngaro foragido da guerra, naturalizado americano com o sobrenome Curtiz, diretor de “Casablanca” o maravilhoso epítome da parafernália de clichês e transculturalismo que alcançam o sublime justamente pelos seus excessos. 
Muitas águas separam o István Szabó de “Mephisto” a este de “The Door”. Não apenas o tempo e a vitalidade que se esvaem, mas também a postura diante do respeito às tradições e à história de seu país. 
Ao contar a história de uma escritora que vem morar perto de uma senhora reservada, cuja porta de casa é intransponível, a mola mestra do tempo é acionada revelando em seu escoamento o desfile das memórias e dos mistérios que assomam numa trama calcada num obscuro episódio da adoção de uma criança durante a segunda guerra mundial. 
O estranhamento de escutarmos a língua inglesa vai-se diluindo no decurso desta jornada, apesar de nunca perdermos de vista a perspectiva histórica, fortemente enunciada através de constantes flashbacks em preto e branco. A fotografia evocativa de um outono eterno e uma iluminação pictórica fluida nos ambienta em um nostálgico décor nos mínimos detalhes preservado como que a proteger um segredo, aquele segredo que está atrás da porta da empregada doméstica Emerenc, interpretada com brilhantismo por Helen Mirren. 
É impactante a comparação desta atriz pela sua interpretação de Elizabeth 2ª. em “A Rainha” de Stephen Frears e no filme em questão. Nela residem uma pessoa e uma alma entregues como ferramentas muito bem azeitadas ao ofício de interpretar - tanto na adequação das sutilezas de seus gestos e intenções, quanto à grandeza inerente a um personagem que escolheu preservar uma tradição a despeito das injunções políticas que o mundo exterior teima em conspurcar. 
Apesar de pensado em termos de um drama edificante em escala global, “Atrás da Porta” não consegue disfarçar sua incômoda adequação aos princípios rígidos da cartilha cinematográfica ditados pelo aval de patrocinadores ávidos no resultado da bilheteria. Todos estes procedimentos navegam na contramão do retrato da solidariedade e da visão humanística do ponto de vista do personagem da escritora, evoluindo em seu ofício como que imbuída pelos princípios de honestidade e retidão vindos da intransigência daquela senhora, tema de sua obra laureada. 
Três estrelas.




PARADA
(“Parada, de Srjan Dragojevic, Servia/Croácia/ Macedônia (antiga Iugoslávia)/ Eslovenia, 2011

Quando fui assistir este filme numa última sessão do dia do cine Estação SESC Botafogo, logo na fila de entrada alguém me avisou “Está meia hora atrasado”. Eu que havia corrido para chegar a tempo afinal tive uma pausa para me recobrar e não reclamei, mas quando dei por mim a meia hora havia se transformado em 50 minutos. Enfim, uma vez acomodado em minha poltrona frente ao telão, apareceu aquela senhora de óculos que faz os discursos chatérrimos e prolixos antes de algumas sessões do festival, pedindo desculpas e elogiando a tolerância da plateia pela incompetência e a desorganização do festival. Em seguida apresentou o diretor do filme, um baita homem que em poucas palavras deu o seu recado, informou que era o primeiro filme inteiramente produzido dentro das próprias fronteiras do que resultou geograficamente das guerras de independência das repúblicas da antiga Iugoslávia, da Croácia e da Bósnia. Disse que ao final quem quisesse perguntar algo sobre a fita ele estaria à disposição. Enquanto se retirava eu o acompanhei com a mente suja, olhos gulosos, boca sequiosa e cheio de boas intenções. Então começou o filme. 
As legendas emperraram várias vezes (filme falado em sérvio), vaias, apupos, perdi a paciência e pedi a devolução da meia entrada para deficiente físico que eu paguei, 9 reais. Uma semana após tive a chance de vê-lo na repescagem. 
Pode-se considerar como um milagre o feito deste senhor - a realização de um filme de complexa e controversa temática gay, focado nas contradições e preconceitos não só no que concerne à sexualidade que lhe serve de ponto de partida, mas também na intolerância das etnias que formam aquele conglomerado, aquele caldeirão multicultural ainda hoje latente naquelas repúblicas. 
É uma boa investigação descobrir as manobras e motivações subjacentes ao período entre o maior genocídio que se tem notícia dos tempos modernos até à eclosão desta obra cinematográfica que  enfia o dedo naquelas feridas ainda mal cicatrizadas. Seria o mesmo movimento cultural e artístico que ocorreu quando da eclosão do neorrealismo italiano após poucos anos da retirada das tropas alemãs da Itália e da derrocada do fascismo? 
“Parada” conta a fábula do recrutamento das forças de segurança para a realização da primeira parada do orgulho LGBT (ou GLBT?) naquelas plagas. Quem se arriscaria a bancar e se comprometer com tamanho descalabro? As academias de lutadores homofóbicos, a polícia e os próprios gays assustados são os primeiros a escafederem-se. O que resta aos abnegados e combatentes soldados da emancipação sexual?
A voz corrente da perversidade sexual os distancia das várias igrejas e ninguém consegue alcançar a realidade discriminatória e o sufoco que se converteu a vida destes excluídos. Mas as forças da solidariedade e do amor próprio encontram seus caminhos. Neste caso, este ponto de virada está na presença da “perua” mais improvável, heterossexual convicta, casada com o machíssimo dono da academia homofóbica, que por uma armação de todos e de todas acaba por aderir e assimilar alguns princípios de tolerância que vão transformar a vida da comunidade. 
Aqui temos um roteiro engenhoso em sua vocação de comédia de gênero, de heróis improváveis e situações inesperadas, conduzido com alguma habilidade pelo gostosíssimo Sr. Dragojevic, navegando na estética do humor kitsch, da supercolorização, da toy art e dos ícones da cultura gay como no reiterado uso da famosa sequência homoerótica camuflada do reencontro dos guerreiros Messala e Ben Hur no filme de mesmo nome de William Wyler, 1959 - uma hilariante ferramenta de conscientização e doutrinação que as bichas usam para convencer brutamontes. 
Não sei se por conta dos sofrimentos e horrores que esta gente vivenciou em nome de Deus e da limpeza étnica, este humor chega a nós, os cultores da pândega e da chanchada, com um ressaibo de amargor, talvez pelas diferenças de temperamentos culturais que nos separam ou da matéria explosiva de que é constituido. 
O chiste é uma das melhores ferramentas para economia da energia psíquica. O tipo de riso entreouvido no cinema está mais para a digestão cerebral de um evento cultural, do que para o estomacal de uma comédia de costumes. 
Em todo caso a abolição das fronteiras sexuais tanto no telão como na vida real é uma necessidade premente e uma realização que requer o empenho das mais diversas, antenadas e esclarecidas tribos. 
É um filme povoado de ursos - para os admiradores, um prato cheio.
Três rebolados.