terça-feira, 25 de outubro de 2011

Aqui É O Meu Lugar

AQUI É O MEU LUGAR
(This Must Be The Place) de Paolo Sorrentino,  Italia, França e Irlanda, 2011) 



This Must Be The Place se articula em torno da canção de mesmo título composta por David Byrne, diretor musical e compositor de outras canções do filme, gravada nos anos 80 pelos Talking Heads, cuja letra canta:
"Home is where I want to be
Pick me up and turn me round
I feel numb - born with a weak heart
(So I) guess I must be having fun
The less we say about it the better
Make it up as we go along
Feet on the ground
Head in the sky
It's ok I know nothing's wrong... nothing
Hi yo I got plenty of time
Hi yo you got light in your eyes
And you're standing here beside me
I love the passing of time
Never for money
Always for love
Cover up say goodnight... say goodnight
Home - is where I want to be
But I guess I'm already there
I come home she lifted up her wings
Guess that this must be the place
I can't tell one from the other
Did I find you, or you find me?
There was a time before we were born
If someone asks, this where I'll be... where I'll be
Hi yo We drift in and out
Hi yo sing into my mouth
Out of all those kinds of people
You got a face with a view
I'm just an animal looking for a home
Share the same space for a minute or two
And you love me till my heart stops
Love me till I'm dead
Eyes that light up, eyes look through you
Cover up the blank spots
Hit me on the head
Ah ooh"
Esta canção  enseja uma casa, lugar onde estaremos seguros desfrutando do convívio dos que amamos após vagar a esmo com os pés no chão e a cabeça nas nuvens, anestesiados, recolhendo-nos como um animal à procura de um lar em que seremos amados durante um ou dois minutos ou até à morte. É também chamada de "Naive Song", uma canção na contra-mão do inconformismo, um tanto anacrônica neste mundo de desgarrados e desterrados, vítimas caçadoras da utopia da liberdade.
Neste filme esta é a casa para onde o filho pródigo um dia retornará.

Cheyenne é um cantor aposentado do rock gótico em voga nos anos 80, época em que fez fortuna com canções sombrias e desesperançadas, arrebatando platéias mundo afora e que provocou o duplo suicídio de adolescentes segundo ele, mais fracos: seu pesar e sua culpa. Enxotado pelos pais das vítimas do túmulo que mandou erguer em sua homenagem, em cuja lápide inscrevem-se os negros versos de suas canções, Cheyenne faz desta romaria um dos itens de sua atual rotina de aposentado que vive de recursos financeiros aplicados nas bolsas de valores. 
Também estão incluidos o cooper com hora marcada e a dois com sua esposa, companheira e cúmplice, profissional do corpo de bombeiros (Frances McDormand, subaproveitada), a neurastenia tediosa da vida numa mansão projetada em todos os detalhes no estilo gótico, arquitetura, móveis e objetos, e sua diária e infalível tarefa de caracterizar-se como se apresentava ao público naquela época, sua persona artística, uma espécie de caricatura de seu contemporâneo também cantor, Robert Smith do The Cure: rosto coberto por espessa camada de pancake branco, cabelos negros alvoroçados por fixador, olhos lúgubres sombreados de preto e boca fortemente purpurinada de vermelho. Ecce homo. 

Uma feroz caracterização exterior como invólucro da voz permanentemente monocórdia em falsete que se mantém o filme inteiro, no que muitos admitem como um tour-de-force de um ator talentoso, mas que afora caracteristicas exteriores de composição, pelo menos neste filme, não há nuances de interpretação que o projete fora da zona da mesmice. O mesmo ocorreu com Nicolas Cage no filme de Werner Herzog "Vicio Frenético" (Bad Lieutenant, Port of call - New Orleans, Estados Unidos, 2009): acorrentado a uma postura corporal massacrante, avaliado como excelente desempenho, na realidade além de não realçar nenhuma característica além do meramente exterior, ainda propiciava um baita desconforto na coluna do público pagante. 
Chayenne também visita diariamente uma triste e transtornada mãe que aguarda dia e noite na janela de seu sobrado no final da rua, com o telefone na mão e fumando infindáveis maços de cigarros, a volta de seu filho que um dia saiu sem explicações e nunca mais voltou. 
Esta primeira meia hora de filme situa Cheyenne em suas atividades, explica seu background, mas pouco aprofunda a questão de sua mágoa em relação ao suicídio de seus fãs, e quando alguém o pergunta porque não teve filhos, responde que não quis ter uma filha que se transformasse numa maluca fashion stylist, clara alusão a Stella McCarthney. 
Alguns na platéia riem. Parece que este filme dirige-se a esta sorridente platéia-alvo, que vai funcionar perfeitamente dentro deste parâmetro em detrimento do grande público. É uma jogada arriscada levando-se em consideração o montante gasto na brincadeira, filmagem em várias locações no mundo, atores caros e sofisticados elementos técnicos de fotografia e montagem, excelentes, por sinal. 
Um dia chega a notícia que seu pai judeu, sobrevivente dos campos de concentração, morreu em Nova Iorque. Cheyenne que não o vê ou mantém qualquer contato há 30 anos, vê-se obrigado a pegar sua malinha e sair de seu casulo para tratar das questões relacionadas ao espólio, tal como Martin de "Americano" em relação à sua mãe,
começando maaaaais um road movie. Chega de navio, por fobia de avião, e também como Martin, perdendo o funeral. 
Papai deixa instruções num manual com escritos e desenhos para que o filho continue sua caça de uma vida inteira devotada ao nazista que o humilhou no campo de concentração. Chayenne é pego de surpresa numa missão de vingança que foge completamente aos seus princípios e que inexplicavelmente, assim como outros elementos deste filme, ficam sem sentido. 
Consulta um famoso caçador de nazistas para quem enuncia uma das melhores frases do filme, que as leis usadas para a caçada aos nazistas são as mesmas que regem o show business, que apostam todas as suas fichas naquilo que lhes dará maior visibilidade. Estão quites. 
Ao contrário do que se afigurava como algo bizarro na Irlanda, a caracterização de Cheyenne encontra-se em seu elemento nas terras americanas. Ali cada um tem direito à sua cota freak, os obesos, a antiga fã ainda fantasiada de gótica (como muitas) que o reconhece num posto de gasolina, o homem completamente tatuado que encontra num bar de beira de estrada e muitos outros por aí perambulando a salvo de serem condenados a perecer num campo de concentração. Mas não livres da intolerância que ainda vitimiza posturas e ideologias diferenciadas. 
Mas curiosamente é ali que seu pancake começa a dissolver. Longe de casa Cheyenne chora sua orfandade e a distância de seus referenciais em  meio à multidão de um show dos Talking Heads, um plano-sequência muito bem transado de um clip da musica This Must Be The Place.
A partir do momento que sua caçada-road movie começa, observamos a decadência da pesada maquiagem de Cheyenne, a cada dia menos espessa, como se a jornada ao encontro do acerto de contas o fosse despojando do artificialismo desta vida   cinquentona semitravestida, constantemente entorpecida por alguma droga não identificada.
Confronta-se com a dúvida da grandeza ou da mediocridade da consumação das vinganças: a pessoa vingada se transforma num grande homem ou somente dá vazão ao monstro que a impunidade de matar engendra dentro daqueles que gozam deste privilégio? 
Cheyenne sempre repete uma fala, em várias ocasiões: 
"Eu sei que há algo de muito errado aqui, mas não posso dizer extamente do que se trata". 
Eu diria que oque há de errado aqui é a forma circunstancial como esta vertente pseudo-histórica que o filme tangencia é tratada, distanciando-se da questão primordial do recolhimento a uma referência espacial que congrega nossas mais íntimas aspirações, dando vez a um filme dentro do outro onde a perseverança, a teimosia e a obsessão são tratados talvez como um fim em si mesmos e não os efeitos destas posturas na vida de pessoas que assumem empreitadas desta envergadura. 
No caderno, o falecido pai escreveu: "O que se perde quando se encontra dentro dos limites do arame farpado é tranquilidade de ver o céu da mesma forma que o contemplamos quando se está no campo ou desfrutando a vida em família", desvirtuada para sempre porque transformada numa caçada insana em busca de uma vingança.
Também está escrito: "O que se perde quando se está fora dos limites do arame farpado é a capacidade de observar no entremeio da listras da fumaça negra de judeus cremados, o céu que se olhava na infância, quando havia a tranquilidade". 
Uma vez lá fora, este céu estará sempre nublado, tal como quando é encontrado o algoz do pai que, ao invés de matá-lo com a super pistola que comprou, Cheyenne resolve dar-lhe outro tipo de tiro (shoot), um close de câmera fotográfica, e humilhá-lo em troca despojando-o de suas roupas na imensidão gelada do retiro onde forçosamente se recolhe, seu único abrigo possível, no fim do mundo.
Também é um céu nublado que contempla a volta do filho pródigo,  agora completamente de cara limpa, à casa da mãe desesperada, como que para recomeçar. 
Três estrelas: uma para o original, Bob Smith, outra para sua emulação, Sean Penn, e a terceira para a boa vontade do distinto público.

2 comentários:

  1. Resenha bastante atenta, parecendo ter sido escrita por alguém extremamente ligado no filme. E também isenta de tiques e receitas pré-fabricadas da critica de cinema dos tablóides especializados. Apresenta material suficiente para ser copiada na surdina e reapresentada com outra assinatura em algum lugar em nome da renovação da forma de comentar filmes.

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    1. Muito obrigado pelo comentário, que são raros aqui. Adoraria saber sua identificação, uma vez que se refere à apropriação na surdina de idéias e materiais expostos nete blog. Parece repetir a mesma prática (comentário anônimo).

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